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20 Mar 2018 | 20:50:07

Entrevista: Sérgio Luis Coutinho Nogueira

Criador, proprietário e dirigente, Sérgio Coutinho Nogueira vivenciou experiências em diferentes setores da indústria turfística. Numa conversa franca, algumas das impressões e relatos sobre o mundo das corridas de cavalo.

Sérgio Luis Coutinho Nogueira

Imagem: R. Saes/Arquivo pessoal

Justamente por se tratar de uma atividade bastante segmentada, o turfe comporta diferentes perfis e papéis. Seus protagonistas, ainda que perseverando, por décadas, na meio, muitas vezes não alternam ou variam suas funções. Há aqueles que vibrarão, exclusivamente, na condição de apostadores. Outros, entusiastas mediante a propriedade de cavalos de corrida. Profissionais e criadores idem. Assim por diante.

Não é o caso, todavia, de Sérgio Luis Coutinho Nogueira. Oriundo de uma das famílias mais atuantes na criação do PSI, no Brasil, encarou e encara desafios, também, na área da propriedade de animais e como dirigente da atividade. No próximo mês de abril, encerrará seu segundo mandato de presidente frente à Associação Brasileira dos Criadores e Proprietários do Cavalo de Corrida. Enquanto isso, segue atento às movimentações dos corredores dos Haras Regina e São Quirino e conversou com a reportagem do website da ABCPCC/Stud Book Brasileiro, conferindo entrevista exclusiva, abaixo transcrita, na íntegra.

 

Nos próximos meses você se despedirá da presidência da ABCPCC/Stud Book Brasileiro, após dois mandatos consecutivos. Qual é a sua avaliação da gestão e o que ela representou na sua vida?

R.: De fato, na segunda quinzena de abril, teremos eleições na ABCPCC e estarei transmitindo o cargo ao novo presidente após ter cumprido duas gestões, ou 6 anos, à frente da entidade. Não me cabe julgar o desempenho de nossas duas gestões, mas sim aos associados e turfistas em geral. Mas, com certeza, saio com a convicção de ter me dedicado e empenhado muito para seu bom funcionamento. Nesses 6 anos me dediquei prioritariamente à ABCPCC. Por 2 ou 3 dias por semana permanecia na própria sede da ABCPCC, durante o período da tarde, sem contar as diversas viagens feitas para representá-la, no Brasil e no exterior. Enfrentamos uma grande dificuldade, pois quando assumimos a ABCPCC, os nascimentos correspondiam a 4.000 produtos, anualmente. No último ano o número estará entre 1.850 e 1.900 produtos. Além de negativa por si só, a redução resultou numa queda muito grande, de arrecadação com emolumentos. Mesmo assim não aumentamos, em nenhum dos 6 anos, os emolumentos em porcentual superior ao aumento dos salários, que representam o maior custo da ABCPCC/Stud Book Brasileiro. Fizemos uma redução no quadro de funcionários, adequando-o ao orçamento da entidade, sem, no entanto, perder qualidade na prestação de serviços. Acumulamos a função de superintendente da ABCPCC e do Stud Book Brasileiro na pessoa da Mayra Frederico, acarretando uma grande redução de custos, tendo isso sido possível pelo ótimo trabalho que ela vem desempenhando. Depois de abril, já aos 68 anos, terei mais tempo para me dedicar à família, aos negócios pessoais e, sobretudo, para acompanhar, ainda mais de perto, os cavalos. Não só as éguas, em Bagé e Curitiba, mas também os animais em treinamento, a maioria deles alojada no (centro de treinamentos) Verde e Preto, em Teresópolis.

Não se trata de novidade, muito menos de segredo, para ninguém, que o turfe brasileiro enfrenta diversas dificuldades, em várias frentes. Após sua experiência como dirigente tais pontos críticos se tornaram mais perceptíveis? Qual, ou quais, deles se revela o mais preocupante – ou seja, aquele que deveria ser a prioridade dos gestores do turfe no Brasil, num curto prazo?

R.: De fato, a crise que atinge o turfe é ainda maior do que aquela que atinge o próprio país, como um todo, pois em decorrência da chamada crise nacional tivemos vários proprietários e criadores atingidos, por motivos diversos. Eles foram obrigados, então, a deixar a atividade ou reduzir sua participação, de forma abrupta. Mas não podemos atribuir todos os problemas à crise nacional, ou aos problemas enfrentados por proprietários e criadores. Nós, da atividade, também temos uma parcela e não diria pequena, de participação, no problema, quer seja no foco, nos objetivos ou mesmo no público alvo. O maior desafio da atividade e, sobretudo, dos Jockey Clubes consiste em atrair novos turfistas, novos aficionados, pois se não tomarmos cuidado, a nossa geração não terá sucessores no turfe. Até agora não vi nenhum esforço nesse sentido, exceto, recentemente, algumas ações realizadas pela PMU/JCB, para atrair um novo público – vide o espaço obtido no Jornal O Globo, no patrocínio do Campeonato Carioca de Futebol, no aumento de agências, na organização de festivais com promoções diversas para entreter o público que comparece ao Hipódromo da Gávea. No Paraná, nessa gestão do Paulo Pelanda, vi um grande esforço na recuperação do clube e sinto que muita coisa foi conseguida. O Jockey Club de São Paulo enfrenta, de longa data, uma crise que, apesar das esperanças e torcida, ainda não foi revertida. Mas temos que nos esforçar muito para que a reversão da situação ocorra, pois, não por eu ser paulista, mas por compreender São Paulo enquanto o grande centro que é, fica difícil imaginar um turfe forte sem uma boa presença de São Paulo – o que ainda está distante de acontecer. O Jockey Clube do Rio Grande do Sul também possui grande importância, não apenas por se tratar do estado que possui mais proximidade com argentinos e uruguaios, como por ser um estado onde há a maior porcentagem de simpatizantes do cavalo, proporcionalmente em relação à sua população. Além, é claro, de representar o maior centro criatório do Brasil. Acredito que a maior participação da ABCPCC e consequentemente do Brasil junto às atividades da Organização Sul Americana de Fomento ao Puro Sangue Inglês (OSAF) e da Federação Interacional de Autoridades Hípicas (IFHA) foi importante para termos maior representatividade e respeito internacional, principalmente em matéria de ratings e graduação de provas. Outro grande desafio corresponde à resolução da questão do mormo, que tanto prejuízo tem acarretado à nossa atividade, com perda de mercados externos importantes, devido às restrições sanitárias. Tal problema vem de longa data, herdei-o da administração anterior (da ABCPCC) e saio frustrado por não ter resolvido a questão, em que pese pequenos avanços, insuficientes, no entanto, para viabilizar o trânsito de animais brasileiros, exceto para América do Sul e Estados Unidos. Em verdade, o grande responsável por esse atraso é o Ministério da Agricultura. Trata-se de um problema que acarreta sérios prejuízos não só ao puro PSI, mas também a outras raças equinas. Os maiores exemplos de que é possível se avançar nesse tema foram os Jogos Pan Americanos, Jogos Olímpicos e Jogos Mundiais Militares, realizados no Rio de Janeiro, para os quais se criaram mecanismos de corredores sanitários, passíveis de ser negociados como permanentes. Outro problema crônico da ABCPCC/Stud Book Brasileiro, que vem acarretando problemas, há algumas gestões, é o sistema de informações. Felizmente e graças a muito trabalho e empenho de todos, porém, conseguimos desenvolver um novo sistema que estará operando nas próximas semanas e deverá ser um marco na nossa atividade, facilitando e desburocratizando as operações do Stud Book Brasileiro.

Paixão pelo atletismo: na imagem, com o medalhista olímpico, Vanderlei Cordeiro de Lima.

Imagem: Clube de Atletismo

Além do turfe, você também participou ativamente de algumas modalidades desportivas olímpicas, em razão do seu envolvimento com o Clube BM&F Bovespa. Até que ponto seria possível comparar a administração desses esportes com o turfe? Foi possível levar experiências positivas, de um para o outro, ou se tratam de mundos completamente diferentes?

R.: Tive participação no esporte, de 1990 a 2002, com o Clube Funilense, e de 2012 a 2017 com a BM&F Bovspa (hoje B3). De fato, tal participação foi grande, mas de 2008 em diante comecei a me envolver cada vez mais com cavalos e acabei deixando de lado a parte do atletismo – muito embora tenha sido Diretor Técnico do Clube até o final de 2017, ainda que ultimamente atuando mais como conselheiro do que como gestor. Toda e qualquer experiência, em qualquer atividade, é sempre útil para ser reproduzida em outras atividades e áreas. No atletismo aprendi muito a respeito de treinamento e principalmente antidoping. Isso me faz, hoje, ser radicalmente contra medicação, tanto no atletismo como nas corridas de cavalo. Assim como no turfe, fiz grandes e fortes amizades. Não é segredo que tanto a Fabiana Murer, do salto com vara, quanto o Vanderlei Cordeiro de Lima, que acendeu a Pira Olímpica nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, são grandes amigos meus.

Na esteira da pergunta anterior: seu pai, José Bonifácio Coutinho Nogueira, presidiu o Jockey Club de São Paulo e a CCCN, em tempos que, obviamente, não se comparam com os atuais, em matéria de turfe. Todavia, o fato de ter acompanhado de perto essas gestões lhe rendeu experiências que foram passíveis de ser aplicadas quando do exercício de sua presidência frente à ABCPCC?

R.: De fato fica difícil responder, pois os tempos da década de 1990 e de hoje são diversos e os problemas são outros. Mas posso dizer e com certeza, que o amor de meu pai pelos cavalos de corrida, pela sua criação e, de sobremaneira, a seriedade e dedicação enquanto ocupante de um cargo público foram importantes exemplos para mim. Não só pela dedicação à ABCPCC como também pela dedicação à criação e às corridas de cavalos.

E por falar em corridas de cavalo, quando tudo começou para você?

R.: Não me lembro de ser gente sem estar ligado ao cavalo. Tanto que me recordo de ter visto, recentemente, uma fotografia minha, aos 5 anos de idade, no Jockey Club de São Paulo, com animais de meu pai – que naquela época corriam com a atual farda do Haras Regina. A semente estava lá e desde os 18 anos sempre tive um ou outro cavalo correndo. Foi entre 2006 e 2007, porém, que retomei a atividade, de fato, e passei a aumentar a dedicação e o número de cavalos.

Dono da Raia, um dos estandartes da criação São Quirino.

Imagem: Albatrozusa.blogspot.com

O Haras São Quirino sempre teve prioridade pela estamina, desde o tempo de seu pai. Hoje, tanto o Haras Regina, quanto o próprio São Quirino, de seu irmão, Toni Nogueira, seguem na mesma direção?

R.: De fato, meu pai sempre priorizou as linhagens de fundo e não foi por acaso que seus melhores animais vingaram em distâncias dos 2.000 metros para cima – a exemplo de Viziane, Dono da Raia, Hansita, Bela Reca, Hiper Gênio, Del Garbo, Ojotabe e outros tantos que, ao relacionar uma lista, corro o risco de deixar de fora. Tanto o Toni, no São Quirino, quanto eu, no Haras Regina, igualmente priorizamos as provas acima dos 2.000 metros. Como criadores. tanto ele quanto eu temos tido melhores resultados nas distâncias de fundo.

Em que momento o Haras Regina passou a expandir seu plantel? Qual é a sua composição atualmente, entre reprodutoras e animais em treinamento?

R.: Como disse antes, foi por volta de 2006, 2007 que retomei a atividade e comecei a crescer. Iniciei a criação em 2008, com poucas, éguas, no Haras Santa Ana do Rio Grande. Tenho tentado permanecer com aproximadamente 25 reprodutoras, mas confesso que esse número vem sempre estourando um pouco. Hoje tenho a maioria das reprodutoras alojadas na Fazenda Mondesir, mas algumas delas se encontram alojadas no Haras São José da Serra – que serão cobertas pelo Hat Trick – no Paraná e outras no Haras Fronteira. Tenho vendido alguns potros nos leilões da ABCPCC e reservo outros. Dentre os animais em treinamento, a grande maioria fica com o Roberto Solanés, no Centro de Treinamentos Verde e Preto. Mas também tenho animais com Márcio Gusso, Altahyr de Oliveira (que treina há mais de 40 anos cavalos do Haras Regina) e Luiz Roberto Feltran.

Dentre os muitos objetivos de um criador está a constituição, em seu haras, de sólidas linhas maternas. No São Quirino, as “Arumbas” foram – e ainda são – uma marca registrada de sua criação. Atualmente, no Haras Regina, você persegue ou se preocupa com algo, nesse sentido?

R.: Todos os haras e grandes criadores têm que se preocupar e muito com as linhas maternas. Meu pai sempre perseguiu tal prática e com ela obteve grandes acertos – e alguns erros também. Isso se chama seleção. Percebam que os Haras São Bernardo, Haras Guanabara, Haras São José & Expedictus, a Fazenda Mondesir, o Haras Santa Maria de Araras, dentre outros, sem exceção, empregaram esforços na construção de linhas maternas. Isso falando apenas de Brasil. Na França, Inglaterra, ocorre o mesmo. É uma preocupação minha, sem dúvida, desenvolver – ou ao menos tentar – linhas maternas. Como comecei em 2008 do zero, procuro comprar éguas oriundas de linhas bem sucedidas em outros estabelecimentos, como Araras, TNT, Santa Ana do Rio Grande, Mondesir etc. A base disso, pretendo fixar algumas linhas maternas com “cara” de Haras Regina. Algumas, inclusive, já estão se firmando e destacando. Mas isso somente com o tempo se verá.

É muito comum ver grandes coudelarias, quando da escolha de seus profissionais, optar por nomes já consagrados. No seu caso, todavia, a expansão do Haras Regina aconteceu concomitantemente aos primeiros passos do Roberto Solanés na profissão. Como se deu essa “aposta”?

R.: O Haras Regina nunca foi muito de mudar de treinador. Tanto que o Althayr de Oliveira, conforme dito há pouco, treina para mim há uns bons 45 anos. A aposta no Beto (Solanés) justifica-se porque sempre fui muito amigo do Gilberto Solanés, pai dele. Como eu estava voltando a ter cavalos e o Beto estava iniciando na profissão, unimos esforços numa parceria que vem dando certo até hoje. Seu sucesso profissional é cada vez maior.

Quais foram os melhores cavalos que você já viu correr?

R.: Pergunta difícil... Mas considerando que não vi nem Itajara tampouco Adil correr ao vivo e a cores, isso já facilita a resposta. Os melhores que vi: Farewell, Emerson, Quari Bravo, Viziane, Dono da Raia, Bal A Bali, Immensity, Emeral Hill, sem prejuízo de outros que possuem lugar e merecimento de estar nessa lista, mas que por ora não nos vêm à mente.

Ao lado do filho Cadu e do treinador Roberto Solanés: recepção para Universal Law após vitória no GP São Paulo.

Imagem: Angélica Bombarda

Dentre os animais dos Haras São Quirino e Haras Regina, quais foram os que mais lhe marcaram?

R.: Já citei o Dono da raia e Viziane, criados pelo São Quirino, mas a eles somaria Garboleto. Do Haras Regina, os melhores foram Universal Law, com quem venci o GP São Paulo (gr.I) e a Copa ABCPCC Clássica Matias Machline (gr.I), a Olympic Message, ganhadora do GP Henrique Possolo (gr.I), e os ganhadores da Milha Internacional, Conclusivo e Snack Bar.

Além de possuir cavalos em treinamento no Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, você já teve cavalos no Uruguai, Argentina, Emirados Árabes, Estados Unidos e Europa. Na sua opinião, quais são os fatores que mais comumente afetam grandes corredores no Brasil que, principalmente, no hemisfério norte, não conseguem repetir o mesmo desempenho?

R.: O principal problema é a falta de tempo para uma perfeita aclimatação e ambientação. A mudança de hemisfério normalmente requer muito tempo e nem todos os animais se adaptam perfeitamente. A adaptação a outro país localizado no mesmo hemisfério é mais fácil, mas ainda assim requer tempo. Uma coisa é viajar de avião direto para uma corida, poucos dias depois. Outra totalmente diversa é a mudança de clima, condições e em geral enfrentando uma desgastante quarentena.

Por fim, quais são seus planos para o futuro?

R.: Agora com mais tempo, plano é viver mais a família e, sobretudo, mais ainda, o turfe. Seja na criação ou nas corridas. Estar mais presente e acompanhar mais de perto.

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