O mês de setembro passa; a mensagem resiste
Iniciativa do Jockey Club do Rio Grande do Sul leva a saúde mental para o centro do debate no turfe e reúne profissionais em torno de uma pauta ainda pouco explorada nas pistas.
Tanise Sabino, Gil Irala e os jóqueis gaúchos posam para a foto da Corrida do Setembro Amarelo.
Imagem: JCRS
Num universo talhado ao mais elevado nível de competitividade, tal qual o mundo do turfe, as vulnerabilidades humanas, muitas vezes e por diferentes motivos, são relegadas a um plano de menor relevância. Pior: além de passarem despercebidas, têm como destino os porões do esporte e lá permanecem escondidas - como se uma mácula, como se pecado fossem, para a atividade.
A cada mês de setembro, um dos mais dolorosos cantos dessa sala mal iluminada, porém, ganha um holofote de atenção. A cor amarela, adotada em diversas campanhas ao redor do mundo, faz de setembro o mês da valorização da vida, da conscientização e da prevenção do suicídio. É nessa toada que o mês de setembro ganhou uma roupagem diferente no Jockey Club do Rio Grande do Sul. A entidade promotora de corridas vem abrindo espaço, dentro de seus muros, para uma discussão que durante muito tempo permaneceu distante das pistas - qual seja, a saúde mental dos profissionais do turfe.
A iniciativa nasceu da aproximação entre o clube, a vereadora e psicóloga Tanise Sabino e a Faculdade Estácio. A proposta contempla palestras periódicas para os profissionais que trabalham no Jockey e atendimento psicológico gratuito, por meio da parceria com a instituição de ensino. A primeira aproximação de Tanise com o ambiente do Jockey ocorreu ainda no início de 2025, quando ela foi convidada pelo clube para proferir uma palestra sobre qualidade de vida, dentro de um ciclo de capacitação dos profissionais do turfe. Da interação com jóqueis, treinadores e dirigentes surgiu a ideia de ampliar a discussão e transformá-la em uma iniciativa permanente.
Em setembro de 2026, o projeto ganhou mais uma edição da Corrida do Setembro Amarelo. Realizada no dia 10, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, a programação contou com páreos alusivos à campanha e homenagens à Associação Brasileira de Apoio aos Enlutados por Suicídio (ABRASES), à própria Tanise Sabino, ao Conselho Regional de Psicologia e à Faculdade Estácio.
De acordo com o presidente do JCRGS, Gil Irala, as palestras realizadas ao longo do projeto permitiram que treinadores e jóqueis tivessem acesso a informações sobre saúde mental e, a partir disso, alguns deles se sentissem em condições de procurar atendimento de maneira mais particular. Dentre aqueles que compartilharam dos seus relatos junto à gente do Cristal, esteve um, em especial, categoricamente enxergado como um semelhante pelos jóqueis. Por trás de uma carreira plena de sucesso, Eurico Rosa descortinou delicados aspectos de sua vida - que se repetem em diferentes cabeças, lares e lugares, todos os dias.
Um dos mais vitoriosos pilotos brasileiros de sua geração, Eurico construiu uma carreira internacional que o levou do Brasil a Macau e, posteriormente, ao Canadá, onde se tornou um dos principais nomes da história do Hipódromo de Woodbine. A trajetória vitoriosa, contudo, conviveu, durante anos, com problemas pessoais que o próprio jóquei tornou públicos em sua biografia, Riding for Freedom, lançada em 2020.
Em sua biografia e em diferentes manifestações públicas, Eurico abordou seus problemas com o alcoolismo e outras questões relacionadas à saúde mental. Ao falar sobre o assunto, passou a utilizar também a própria experiência para estimular a discussão sobre o tema entre outros profissionais do turfe.
Uma revisão de estudos publicada em 2021, no BMJ Open Sport & Exercise Medicine, que reuniu 16 estudos sobre saúde mental de jóqueis profissionais, identificou pesquisas envolvendo depressão, ansiedade, sofrimento psicológico, transtornos alimentares e uso problemático de substâncias. A referida literatura também encontrou, em diferentes estudos, níveis de sintomas de depressão e ansiedade entre jóqueis superiores aos observados em outros atletas de alto rendimento. O uso adverso de álcool também apareceu com frequência relevante - sobretudo no papel de uma "muleta" para encarar outros tantos problemas inerentes à profissão, tais quais lesões, estresse, burnout, insatisfação com a carreira e a perspectiva de aposentadoria. Outro ponto identificado foi a baixa procura dos jóqueis por ajuda profissional.
Um dos estudos reunidos na revisão, realizado com 84 jóqueis profissionais na Irlanda, apontou que 79% dos participantes foram identificados como apresentando - ainda que em patamares mínimos - um dos problemas de saúde mental avaliados no estudo; 61% apresentaram indicadores de uso adverso de álcool, 35% atingiram o patamar mínimo para diagnóstico de depressão, 27% para ansiedade generalizada e 19% para alguma espécie de sofrimento psicológico.
Os números, por certo, dizem respeito à população estudada na Irlanda e não podem ser automaticamente transportados para a realidade brasileira. Servem, contudo, para dimensionar uma discussão que vem ganhando espaço em diferentes centros do turfe mundial. Nos Estados Unidos, por exemplo, um simpósio dedicado à saúde mental dos jóqueis foi realizado em 2023 pela Horseracing Integrity and Safety Authority (HISA) e pela Jockeys' Guild. Eurico também participou do encontro, compartilhando sua experiência pessoal e falando sobre as dificuldades que enfrentou ao longo da carreira.
Sem prejuízo do fato de que os problemas de saúde mental acometem atores das mais diversas classes da cadeia de profissionais do turfe, fato é que, especialmente em relação aos jóqueis, nota-se um paradoxo nesse tema: para permanecer no dorso de um cavalo, que pode alcançar altas velocidades, em meio à disputa por espaço e tomando decisões numa fração de segundos, é necessária muita força - em suas mais diferentes manifestações. Quando a corrida acaba, porém, as mesmas pessoas que se acostumaram a conviver, diariamente, com uma infinidade de riscos físicos, também podem carregar dificuldades que não aparecem no winner's circle e, não raramente, veem sua força esvair.
Mas há outra forma de força, menos visível e, talvez por isso mesmo, mais difícil de reconhecer.
A de admitir que alguma coisa não vai bem.
A de procurar ajuda.
Ao abrir espaço para que essa pessoa fale, seja ouvida e tenha acesso a atendimento, o Jockey Club do Rio Grande do Sul coloca em discussão um aspecto do turfe que durante muito tempo permaneceu longe dos focos de atenção da atividade - e compartilha com todos uma importante mensagem. Muito embora as pistas sejam o palco do fascinante espetáculo, fora delas também há de existir espaço para cuidar daqueles que emprestam seu talento e coragem para entreter e transformar a vida do seu público, dia sim, dia também.



