12 abr 2017 | 20:57:26

As 6 (seis) lições de Fluke

por Victor Corrêa

Fluke

Imagem: Luiz Melão

Não há um animal em tamanha evidência, na atualidade do turfe brasileiro, do que No Regrets. Quinta tríplice coroada da história da Gávea, dona de um poderio locomotor incomum e que por isso mesmo ocupa nas conversas e discussões sobre o nosso esporte, um considerável espaço. Ao contrário do que possa parecer , todavia, o feito de No Regrets não se deu no momento em que a corredora cruzou, vitoriosa, o disco do GP Zélia Gonzaga Peixoto de Castro (gr.I). Em verdade, a saga de uma tríplice coroa - ou de conquista semelhante - começa a ser redigida quando da escolha de um determinado garanhão para servir a uma determinada matriz. E ainda que por diversas ocasiões a história nos mostre que sorte, acaso e/ou qualquer outra vertente metafísica possam influenciar nesse momento (com escolhas desencontradas rendendo bons resultados), ao menos a tentativa de minimizar o erro mostra-se salutar - tanto para troféus, quanto para bolsos.

Sem qualquer demérito para Buy Me Love (cuja produção lhe coloca, desde logo, como uma das melhores reprodutoras da história da criação brasileira), é Fluke quem mais chama atenção dentre os nomes que encabeçam o pedigree de No Regrets. Corredor de exceção e pai de uma única geração composta por 29 produtos, Fluke já dá sinais de que será lembrado, daqui a alguns anos, como "aquele que tinha tudo para ser o melhor reprodutor nacional de sua época", ou coisa do tipo. Isso, porque Fluke, numa daquelas fatalidades que costumam flertar com os grandes campeões, morreu precocemente, em Bagé, no ano de 2012, logo após encerrar sua primeira temporada de monta.

E se Fluke somente existe, hoje, enquanto uma - excelente - recordação, resta aos turfistas, e criadores, de plantão, duas maneiras de rememorá-lo: contemplando os promissores resultados, de seus filhos e netos; ou tirando de sua ausência, e do que ele representa no atual momento do turfe brasileiro, algumas lições que poderão ser úteis ao futuro da indústria do PSI em nosso país.

Indo ao encontro dessa proposta, listamos abaixo 6 (seis) lições, ideias ou pautas construídas quando "olhamos" para Fluke. Para muitos soará como chover no molhado. Para outros tantos, tudo não passará de breves devaneios, mas, acima de tudo os pontos indicados se prestam a sugerir que, no turfe, as más decisões - que são tomadas a torto e a direito - se perpetuam no tempo. E, na mão inversa, a sapiência para identificar elementos bem sucedidos em suas respectivas funções são capazes de transformar todo um mercado, e por consequência a vida de muita gente.

1) No meio do caminho (de Fluke) havia uma pedra. A pedra se chamava Skypilot. E ela ainda está aí.

Como é amplamente sabido, e repetido (em que pese não se ver a aplicação prática disso), Fluke é mais um exemplo crasso relacionado à problemática da subutilização do reprodutor nacional. Importações fracassadas de garanhões (e cujo fracasso era passível de identificação antes mesmo do seu desembarque em terra brasilis) custaram - e ainda custam - tempo e dinheiro a inúmeros criadores. Inobstante, a baixa qualidade do semental se reflete em cavalos ruins. Cavalos ruins "doem" no bolso, nivelam por baixo o nível de gerações num mercado interno, e fazem das corridas do respectivo país coisa, se não mal vista, ao menos bastante questionada, sob o ponto o prisma técnico, no mercado internacional. Em suma, todos saem perdendo.

Acontece que para rebater essa sequência de afirmações, sempre há alguém disposto a questionar "bem, mas então me aponte um 'outro' Fluke" - como se a oferta de elementos notoriamente diferenciados, em termos de reprodutores nacionais, fosse algo escasso. Pois bem, nesse caso, o que dizer, então, daquele que fora o único capaz de derrotar Fluke no Brasil? Skypilot, algoz de Fluke no GP Juliano Martins (gr.I) de 2007, polêmicas à parte capazes de serem debatidas sobre o desfecho do páreo em questão, fora um notório destaque de sua geração. Vitorioso dos 700 aos 1.600 metros, múltiplo ganhador clássico em Cidade Jardim e dono de uma valentia assombrosa (N.R.: Skypilot praticamente não galopou, e por muito pouco não foi retirado, na semana véspera do GP Juliano Martins em razão de um cravo mal martelado pelo ferrador), Skypilot é um Put It Back na mãe - Ilang-Ilang - de ninguém menos que Daffy Girl. Seu físico impecável, por fim, é a cereja do bolo feito a partir de um cavalo assertivo em todas as suas qualidades.

Pertencente ao Haras Free Way (o estabelecimento localizado em Ibirporanga, no Estado de São Paulo, fora o único a utilizar o garanhão até aqui), Skypilot possui apenas 47 produtos divididos em 7 gerações, sendo que 40% de seus filhos venceram (provas comuns) e 8% possuem colocações em provas de black type. Com apenas 2 nascimentos em 2016, Skypilot não deverá padrear mais do que 10 éguas em 2017.

2) O valor de uma matriarca

Ao adquirir o Haras Inshalla para, no mesmo imóvel – em Bagé/RS – estabelecer o Haras Doce Vale, Alfredo Grumser também adquiriu, dentre outras matrizes, Court Lady e Donnegalle. Algumas décadas depois, ambas viriam a se revelar (tanto por produção direta, quanto por meio de filhas e netas) como matrizes de histórica importância para a criação brasileira, além de ser duas pedras fundamentais da criação Doce Vale. Fluke, por sua vez, também bebeu dessa fonte.

A mãe de Fluke, Uff-Uff (de Quest) é uma filha da já citada Donnegalle. Além de Fluke, Uff-Uff produziu a outros 3 ganhadores graduados, sendo 2 de grupo I: Hunka Hunka e I Scream. Ou seja, sem Donnegalle difícil seria supor que haveria uma substituta à altura da matriarca, capaz de render resultados equivalentes, ou superiores, ao Haras Doce Vale.

As grandes matriarcas custam caro? Custam. Sua reles presença nas linhas do catálogo por vezes superestimam o mais inexpressivo dos lotes, arremessam o preço às alturas e ajudam a vender o “invendável”.  Mas queiram, ou não, é a partir delas que se constroem os grandes haras – e, como Fluke bem nos mostrou, também são peças importantes para o surgimento de grandes reprodutores.

3) Por que não enxergar Wild Event como um "pai de pais"?

Em meio aos grandes garanhões, há grupos e divisões distintas. Se tem os que produzem com alto índice de classicismo; de outro lado, aparecem os que se consagram num segundo momento, como avôs maternos; e também existem, por fim, os "pais de pais" – ou seja, reprodutores capazes de gerar outros reprodutores tão bem sucedidos quanto o referido patriarca.

Storm Cat nos Estados Unidos, Danehill na Austrália, Sadler’s Wells na Europa. Há inúmeros exemplos e idiossincrasias quando o assunto são os “pais de pais”. Mas para que o fenômeno do “pai de pais” se manifeste, é primordial – por uma questão lógica – que os filhos ao menos recebam as devidas oportunidades. No Brasil, porém, como não se difundiu o costume de aproveitar os melhores animais locais, produzidos a partir de consagrados reprodutores estrangeiros, muito material se perdeu nesse sentido, e o tino deste, ou daquele, garanhão, de produzir outros bons garanhões, restou algo ofuscado.

Wild Event galga, com seus números estonteantes, posição entre os melhores PSI já incorporados à reprodução brasileira, em todos os tempos. Seja como avô materno, produtor de ganhadores individuais de G1 ou produtor de ganhadores e/ou colocados em provas clássicas, Wild Event se firma, com tais resultados, como elemento ímpar entre os animais de sua classe no Brasil. E se Wild Event é tido, naturalmente, como reprodutor diferenciado, os machos por ele produzidos também mereceriam especial atenção. Assusta, entretanto, o fato de que, dentre seus filhos, somente Poker Face está sendo aproveitado na reprodução. Até quando o criador brasileiro estará disposto a investir (neste caso um modo mais agradável de se dizer “perder dinheiro”) em garanhões importados para, na segunda geração de seus genes, simplesmente descartar os machos aqui produzidos?

4) Campanha + pedigree = sucesso

O turfe é um esporte tão apaixonante porque, dentre outros motivos, não se explica à base de cálculos ou fórmulas herméticas. Ainda assim, tanto a criação, quanto a propriedade de um cavalo de corrida, são atividades bastante custosas. Custosas demais, nós diríamos, para tentar contar com a sorte, e trabalhar em cima das exceções, na maioria das vezes.

Logo, sem entrar no mérito da nacionalidade do garanhão, há ao menos dois elementos preponderantes para embasar a resposta sobre o quanto aquele determinado animal merecia uma chance ao sol, na reprodução: campanha e pedigree. Nosso cavalo tema, Fluke, possuía os dois. A começar por ser ele um filho do já citado Wild Event, numa múltipla produtora clássica que descende, por sua vez, de uma das grandes matriarcas da criação moderna do PSI brasileiro – a também já citada Donnegalle. E depois por ter sido, em pista, um “2 anos” avassalador no Brasil, que posteriormente exportado para os Estados Unidos vencera nada menos do que duas provas de G1 naquele país: os Citation Handicap e Frank E. Kilroe Mile Stakes.

Com base na qualificação do parágrafo anterior, a utilização de Fluke por seu criador, na reprodução, passa muito mais perto do adjetivo óbvio, do que do verbo arriscar. Tomar riscos nesse caso, seria pagar uma fábula por um matungo refinado, sem a devida estrutura genética, e lhe entregar de olhos fechados todo um plantel de reprodutoras. E Fluke, certamente, jamais se encaixou nessa definição.

5) Matrizes ruins não “fazem” reprodutor algum. Muito menos o reprodutor nacional.

Se por um lado de nada adianta entregar boas reprodutoras a um reprodutor ruim, a recíproca também é verdadeira. A mão de obra genética, por assim dizer, é dividida entre garanhão e matriz. Logo, é muito fácil culpar este, ou aquele garanhão (principalmente os freshmen sires, marujos de primeira viagem que cobrem pouco, e geralmente para um único interessado – que na maioria das vezes é o seu próprio dono) por uma prole ruim, sem levar em consideração, porém, a qualidade das éguas que lhe foram oferecidas. Até mesmo nos grandes estabelecimentos, que decidem, volta e meia, dar uma chance ao reprodutor nacional, algo semelhante se passa: àquele somente são destinados os descartes do plantel.

Para Fluke “acontecer” como garanhão, houve a participação determinante, por outro lado, de qualificadas reprodutoras. Buy Me Love (Jules), a mãe de No Regrets, por exemplo, é dona de uma produção estupenda. Cruzada com 4 reprodutores distintos, Buy Me Love foi capaz de gerar 4 ganhadores clássicos individuais (NR.: Last Cookie, sua filha ganhadora de prova especial, não entrou na conta em razão de não ter vencido páreo de black type), incluindo o ganhador do Grande Prêmio Brasil (gr.I), My Cherie Amour, e agora uma tríplice coroada. Já Chérie Gigi (Roi Normand), que produziu a outra vencedora de G1 revelada por Fluke, Nostalgie, já havia dado a luz a dois colocados em provas de grupo – quando servida por Public Purse – antes da brilhante potranca aparecer.

Fluke tinha tudo para funcionar como reprodutor? Sim. O faria da mesma forma, porém, caso lhes fossem enviadas éguas de qualidade duvidosa? Difícil saber. O Haras Doce Vale preferiu não pagar para ver. E os resultados, no final das contas, falam por si só. 

6) Nada dura para sempre

O turfe é um esporte de grande dinamicidade, dentro e fora das pistas. Corridas, haras, cocheiras e leilões. Universos distintos que operam numa velocidade galopante, dependem uns dos outros intrinsecamente e se afetam, mutuamente, para bem ou para mal, de acordo com a qualidade das decisões tomadas em cada setor. Os jóqueis, geralmente, são os mais exigidos nesse sentido vez que suas escolhas restam, por vezes, levadas a cabo numa fração de segundos.

Já aqueles que decidem o futuro de um haras, ou de um plantel, e que justamente por isso também influenciam no destino da atividade como um todo, podem, normalmente, ponderar um pouco mais suas investidas. Fluke, por exemplo, esteve 6 meses à disposição dos criadores brasileiros, até ser vitimado por uma fratura no seu anterior direito, e desaparecer. Nesse intervalo de tempo, além do Haras Doce Vale, somente outros 3 criadores se utilizaram dos serviços do garanhão: Haras São José da Serra (4 éguas), Stud Pico Central (1 égua) e Stud Vale das Videiras do Rio (1 égua).

No caso de Fluke, contudo, é possível levar em consideração sua morte precoce, e acreditar que outros criadores reparariam no reprodutor nas temporadas seguintes. Mas voltando a examinar o pedigree de No Regrets, é possível visualizar, como genitor de segunda mãe, o também nacional Troyanos. Ganhador de 10 corridas em 12 saídas (entre os 2 e 4 anos, dos 1.200 metros na areia aos 2.400 metros na grama), vencedor de Grandes Prêmios Brasil (gr.I), São Paulo (gr.I) e Derby Paulista (gr.I), Troyanos teve 96 produtos registrados em 11 gerações – ou seja, menos de 9 produtos por geração. Ou seja, o – quase – ostracismo de Troyanos se estendeu por mais de uma década – sem que ninguém o “pinçasse” para assumir oportunidades razoáveis, sob o ponto de vista qualitativo, e quantitativo.

A metáfora do cavalo encilhado, que por vezes passa à nossa frente, sem que ninguém tome a iniciativa de lhe montar, se aplica muito bem ao menos às últimas 3 décadas da criação brasileira. E o tempo segue passando, com desafios – até mesmo de caráter sanitário – cada vez maiores sendo opostos ao PSI criado no Brasil. Não há duvidas que inúmeros abnegados buscam, dia e noite, soluções para a qualificação constante do cavalo aqui produzido, e criado. Ocorre que, numa dessas, a chave para o sucesso está justamente aqui: bem debaixo dos nossos próprios narizes.

por Victor Corrêa

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