Troféu Mossoró: celebração e curadoria do turfe brasileiro
Principal distinção do turfe nacional ajuda a contar um bocado da história do turfe brasileiro, no século XXI.
Após o encerramento das disputas da Copa dos Criadores 2026, a comunidade turfística do Brasil voltará a se reunir para celebrar mais uma edição da principal distinção entregue aos nomes de destaque da atividade no país. O Troféu Mossoró condecorará, desta feita, os protagonistas da temporada 2025/2026. No seu histórico, contudo, o Mossoró apresenta elementos que vão muito além dos últimos 12 meses: há animais e pessoas que ajudam a contar um bocado da história do turfe brasileiro no século XXI.
Em 2002, o Troféu Mossoró foi instituído pela ABCPCC e, ao final da temporada hípica iniciada em 2001, serviu para revisitar êxitos e acontecimentos de grande importância. Mais do que isso: o Troféu Mossoró ofereceu ao Brasil uma deferência já levada a cabo em muitos outros países. Nos Estados Unidos, há enorme expectativa, ano a ano, pela realização do Eclipse Awards. Na Europa, algo parecido ocorre com o Cartier Awards. Na Argentina, seus nomes de realce, temporada a temporada, são revisitados por ocasião das Distinciones Pellegrini.
Tríplice coroado em 2001, Roxinho foi o primeiro Animal do Ano, no Troféu Mossoró.
Imagem: Porfírio Menezes/JCSP
Roxinho, então tríplice coroado de Cidade Jardim, foi o primeiro animal a receber o prêmio de Animal do Ano. Lost Love (velocista que viria a batizar o centro de treinamentos do Haras Anderson, na serra fluminense), Queen Desejada (algoz dos machos no GP Brasil do ano anterior) e Be Happy (vencedora da Taça de Prata e, anos mais tarde, matriz de desempenho clássico no plantel da Godolphin) também estiveram entre os vencedores.
Para além das categorias tradicionais (que ainda não contemplavam, contudo, Melhor Jóquei e Melhor Treinador), o Troféu Mossoró de Honra ao Mérito teve início em alto estilo: foi dedicado às conexões brasileiras de Farda Amiga, que, por sua vez, havia vencido o Kentucky Oaks (G1), nos Estados Unidos, e figuraria como a melhor potranca daquela temporada no país.
Nas edições seguintes, Pico Central acabaria condecorado como Melhor Velocista (2002/2003, ano em que Gene de Campeão foi o Animal do Ano) e Animal do Ano (2003/2004). Nesse passo, o Troféu Mossoró esteve associado a um dos elementos definitivos para a defesa do PSI brasileiro no exterior. Tendo sido capaz, no país de origem, de vencer provas de G1 dos 1.000 (GP Major Suckow) aos 1.600 metros (GP Estado do Rio de Janeiro), na América do Norte não foi diferente: Pico Central vingou, na esfera máxima, dos 1.200 (Vosburgh Stakes) aos 1.600 metros (Metropolitan Handicap). Em paralelo, o Mossoró premiou seu primeiro vencedor do GP Carlos Pellegrini (G1), quando Gorylla foi comemorado, pelo segundo ano consecutivo (na temporada 2003/2004), como o Melhor Cavalo de 4 Anos e Mais Idade.
Vencedor de G1, dos 1.000 aos 1.600 metros, na grama e na areia, no Brasil e nos Estados Unidos, Pico Central marcou época.
Imagem: Divulgação JCB
Com a instituição das categorias para profissionais, em 2004, o domínio de Jorge Ricardo, eleito o melhor das rédeas nas suas três primeiras edições, somente foi posto à prova pelo surgimento de João Moreira. A eles se juntariam, nos anos seguintes, Marcos Mazini e Dalto Duarte, dois talentos do quadro de jóqueis do país, de carreiras brilhantes e precocemente interrompidas.
Entre os treinadores, outros profissionais de escol dominaram a categoria. Mário Rodrigues Campos, Antônio Luis Cintra, Dulcino Guignoni e Venâncio Nahid fizeram-se assíduos à condição de ganhadores. Pedindo passagem, Roberto Solanés e Luis Esteves apresentaram-se como novos nomes alçados à condição de melhor treinador do país. Nas páginas mais recentes dessa história, Antenor Menegolo Neto e seu tio, Adélcio Menegolo, completam o rol de homenageados.
Num cenário em que os Grandes Prêmios Brasil eram disputados em diferentes temporadas hípicas, Dono da Raia - vencedor de ambas as provas no ano de 2006 - tornou-se o primeiro bicampeão da categoria de Animal do Ano: o sufrágio dos votantes resultou na sua escolha nas temporadas 2005/2006 e 2006/2007. Tendo em vista o prevalecimento de Thignon Boy na categoria principal em 2004/2005, aliás, o prêmio de Animal do Ano restou entregue, consecutivamente, aos ganhadores da prova máxima da Gávea. Enquanto isso, nas demais categorias, subsistia a tendência de premiar animais de qualidade ímpar: da tríplice coroada Colina Verde (responsável por interromper o longo hiato sem que uma potranca alcançasse a façanha, na pista de São Paulo), passando pelo vencedor do Derby Argentino, Eu Também, e atingindo a precoce e poderosa Celtic Princess, o rol de vencedores das edições inaugurais da premiação seguiu dando o que falar.
Royal Academy teve passagem marcante pela criação brasileira e foi agraciado com o Troféu Mossoró de Melhor Reprodutor.
Imagem: Ashford Stud
Foi a própria Celtic Princess, aliás, quem fez história ao tornar-se a primeira fêmea eleita na categoria de Animal do Ano: a corredora o fez na temporada 2007/2008, credenciada pela conquista esmagadora, sobre os machos, no Grande Criterium do GP Linneo de Paula Machado (G1), sem prejuízo de um segundo lugar, no fotochart, para Jet, no GP Presidente da República (G1), e de um terceiro lugar para Mr. Universo, no GP Derby Paulista (G1). Nos Estados Unidos, Celtic Princess performaria como ganhadora do Royal Heroine Stakes (G2) e segunda colocada no Gamely Stakes (G1).
Em outras categorias da premiação, o Mossoró, em seus primeiros anos de realização, deu-se ao luxo de premiar reprodutores e matrizes que marcaram, sobremaneira, a história da criação brasileira. Royal Academy e Know Heights, os primeiros a vencer, por mais de uma vez, o troféu de Melhor Reprodutor, dariam vez, na sequência, a Wild Event e Put It Back, enquanto nomes dominantes da classe. As cinco estatuetas dedicadas a Wild Event somente seriam aproximadas nos anos mais recentes do Troféu Mossoró, quando Agnes Gold acabou eleito por quatro vezes seguidas. Fausse Monnaie, Onefortheroad e Uff-Uff (adiante acompanhadas por outras exímias reprodutoras): ventres dourados do plantel nacional, múltiplas produtoras de ganhadores de graduação máxima e nomes presentes a uma infinidade de corredores que alcançaram, com êxito, as provas mais cobiçadas do turfe brasileiro, estão entre as premiadas na categoria de Melhor Reprodutora.
Como não poderia deixar de ser, também se definiu um posto especial ao Reprodutor Nacional, no Mossoró. Ao polivalente Romarin, "dono" dos primeiros três troféus da categoria, juntou-se, adiante, o recordista de estatuetas de Reprodutor Nacional: Redattore, eleito por nada menos que nove vezes nesse "páreo". Setembro Chove (a exemplo de Romarin, com quatro estatuetas), Chronnos (bicampeão da categoria) e o precocemente desaparecido Fluke também figuram entre os grandes vencedores da categoria.
Recordista mundial de vitóris, Ricardinho engrandece o quadro de vecedores do Troféu Mossoró de Melhor Jóquei.
Imagem: Divulgação JCSP
Flymetothemoon (2008/2009), Sal Grosso (2009/2010) e Gober (2012/2013) voltaram a colocar a vitória no Grande Prêmio São Paulo (G1) como régua para a definição do Animal do Ano. Intercalados com esses animais, Xin Xu Lin (2010/2011) - após heroica vitória obtida, de ponta a ponta, no Pellegrini - e Plenty of Kicks (2011/2012), brilhante tríplice coroado do turfe carioca, também foram erigidos ao posto principal da premiação.
Sensação do turfe brasileiro, Bal A Bali foi eleito Animal do Ano na temporada 2013/2014. Houve, naquele período, uma feliz e rara coincidência: no semestre anterior ao brilho de Bal A Bali na tríplice coroa da Gávea, Fixador havia conquistado a tríplice coroa em Cidade Jardim, o que resultou, na premiação de Honra ao Mérito, em uma homenagem conjunta a ambos os animais. Também vencedor do Grande Prêmio Brasil (G1), Bal A Bali expandiu sua fama além-mar ao vencer uma dura batalha contra a laminite e, posteriormente, sagrar-se múltiplo ganhador de G1 no concorrido turfe norte-americano.
Barolo (2014/2015) e Universal Law (2015/2016) tiveram como credenciais para as conquistas dos seus respectivos troféus de Animal do Ano as vitórias nos Grandes Prêmios Brasil (G1) e São Paulo (G1), de cada temporada. Primeira fêmea tríplice coroada a conquistar o mais destacado prêmio da honraria, No Regrets brilhou na temporada 2016/2017, sendo seguida por Quarteto de Cordas (2017/2018), por sua vez relembrado pelo emocionante duelo travado com Arrocha na chegada do Grande Prêmio Brasil (G1).
Ídolo do turfe nacional, Bal A Bali venceu severa batalha contra a laminite, nos Estados Unidos, para depois tornar-se ganhador de G1, também naquele país.
Imagem: Sylvio Rondinelli/JCB
O mencionado Arrocha (Melhor Cavalo de 4 Anos e Mais Idade, 2018/2019), aliás, está entre os ganhadores do Mossoró que, posteriormente, apresentaram-se como talentosos reprodutores. Também se enquadram nessa definição Desejado Thunder (Melhor Velocista, 2010/2011), Billion Dollar (Melhor Velocista, 2012/2013) e Wenzel Blade (Melhor Velocista, 2016/2017). O mesmo se aplica aos ganhadores da categoria de Melhor Arenático, Beduíno do Brasil (2012/2013) e Victory Is Ours (2013/2014). Inafastável, de igual modo, a menção a Dídimo (Melhor Cavalo de 4 Anos e Mais Idade, 2012/2013).
Na temporada 2018/2019, Jolie Olímpica, invicta e credenciada por esmagadora vitória no GP Jockey Club Brasileiro (G1), contra os machos, tornou-se o primeiro produto de 2 anos a vencer a categoria de Animal do Ano. A poderosa alazã, aliás, foi seguida de outras duas fêmeas eleitas para a honraria principal do evento. Tríplice coroada invicta na Gávea, Janelle Monae encantou os turfistas do país com sua jornada meteórica e foi eleita Animal do Ano no primeiro Mossoró realizado após o hiato da pandemia, na temporada 2020/2021. Dona de um raro double no Grande Prêmio Major Suckow (G1), In Essence foi condecorada na temporada 2021/2022.
Vencedor dos Grandes Prêmios Brasil (G1) e Cruzeiro do Sul (G1), Raptor's foi o Animal do Ano na temporada 2022/2023. Vitorioso no Grande Prêmio São Paulo (G1) e responsável por levar os brasileiros à loucura, em San Isidro, por ocasião de sua conquista no Gran Premio Latinoamericano (G1), o precocemente desaparecido Doutor Sureño foi eleito na categoria principal em 2023/2024. Dona de uma vitória estonteante no Grande Prêmio Diana (G1) e credenciada, ainda, por exibições de alto nível nos Grandes Prêmios Brasil (G1) e Latinoamericano (G1), Ethereum (2024/2025) detém a mais recente estatueta de Animal do Ano.
Tamanha a qualidade dos concorrentes ao Mossoró, ano após ano, que, em paralelo às conquistas mencionadas nos últimos parágrafos na categoria de Animal do Ano, houve, em muitas outras, a eleição de uma série de animais de exceção. Múltipla ganhadora de G1 (incluindo um GP Cruzeiro do Sul [G1] por mais de seis corpos) e tendo flertado com vitórias nas duas principais provas do turfe brasileiro, Daffy Girl foi eleita Melhor Potranca de 3 Anos (2015/2016) e Melhor Égua de 4 Anos e Mais Idade (2016/2017). Ainda falando "das meninas", Kenlova (igualmente sob a condição de múltipla ganhadora de G1), que, após mais de duas décadas, quebrou um tabu sem vitórias de fêmeas no Grande Prêmio São Paulo (G1), foi a Melhor Potranca de 3 Anos em 2022/2023 e Melhor Égua de 4 Anos e Mais Idade em 2023/2024.
Dono de campanha e produção excepcionais, Redattore foi, por nove vezes, o Melhor Reprodutor Nacional.
Imagem: Stud TNT
Atualmente cercados de esperanças enquanto reprodutores, George Washington (Melhor Potro de 3 Anos, 2018/2019), Pimper's Paradise (Melhor Cavalo de 4 Anos e Mais Idade, 2020/2021) e London Moon (Melhor Potro de 2 Anos, 2021/2022; Melhor Cavalo de 4 Anos e Mais Idade e Melhor Milheiro, 2023/2024) também constam entre os ganhadores do Mossoró. "Donos" da milha no país por alguns anos (com direito a acirrados embates entre ambos), Bien Sureño (Melhor Milheiro e Melhor Cavalo de 4 Anos e Mais Idade, 2021/2022) e Ushuaia Ibiza (Melhor Milheiro, 2022/2023) foram devidamente reconhecidos. Algo semelhante aplica-se aos rivais em pista Oriana do Iguassu (Melhor Velocista, 2022/2023) e Mandrake (Melhor Velocista, 2023/2024 e 2024/2025), que deram o tom da velocidade no Mossoró nas últimas temporadas.
A par das disputas de alto nível a cada temporada e em cada categoria, o Mossoró permaneceu vigilante à sua função de representar um ritual de congraçamento e de cultivo da memória do turfe nacional. Não por menos, o prêmio de Honra ao Mérito seguiu encontrando mãos e memórias de homenageados que, em vida ou de maneira póstuma, foram reverenciados em contrapartida às grandes contribuições proporcionadas à atividade no Brasil.
Por fim, a possível impressão de que houve um esquecimento, nas linhas acima, quanto às categorias de Melhor Criador e Melhor Proprietário demanda uma rápida — porém justificada — eliminação. A dedicação e os investimentos inerentes à manutenção de plantéis, em haras ou em treinamento, fazem dessas figuras algo notoriamente especial. Por serem especiais, seus vencedores merecem nominação, um a um, temporada a temporada. Até mesmo pelo fato de carregarem consigo uma importante missão: mais do que seus nomes, fardas e logomarcas, cada um desses criadores e proprietários representa todos os demais inseridos nas cédulas de votação, ano após ano. Representam, também, aqueles que, muito embora não nominados ou reputados como distantes de uma indicação, são os responsáveis por proporcionar, diariamente, entretenimento, paixão e razão de existir para tanta gente que somente se entende por gente enquanto houver corridas de cavalo. Enquanto houver cavalos de corrida.
2001/2002
Melhor Criador: Haras Anderson
Melhor Proprietário: Stud Raça
2002/2003
Melhor Criador: Haras Bandeirantes
Melhor Proprietário: Haras Bandeirantes
2003/2004
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Stud TNT
2004/2005
Melhor Criador: Stud TNT
Melhor Proprietário: Stud TNT
2005/2006
Melhor Criador: Fazenda Mondesir
Melhor Proprietário: Stud Raça
2006/2007
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Stud Eternamente Rio
2007/2008
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Coudelaria Jéssica
2008/2009
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Stud Estrela Energia
2009/2010
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Stud Alvarenga
2010/2011
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Haras Regina
2011/2012
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Haras Santa Maria de Araras
2012/2013
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Stud Alvarenga
2013/2014
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Stud Alvarenga
2014/2015
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Haras Regina
2015/2016
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Haras Regina
2016/2017
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Stud Eternamente Rio
2017/2018
Categoria não realizada
2018/2019
Melhor Criador: Haras Santa Maria de Araras
Melhor Proprietário: Haras Regina
2020/2021
Melhor Criador: Haras Santa Rita da Serra
Melhor Proprietário: Stud Eternamente Rio
2021/2022
Melhor Criador: Haras Anderson
Melhor Proprietário: Haras Rio Iguassu
2022/2023
Melhor Criador: Haras Anderson
Melhor Proprietário: Haras do Morro
2023/2024
Melhor Criador: Haras Cifra
Melhor Proprietário: Haras Rio Iguassu
2024/2025
Melhor Criador: Haras Santa Rita da Serra
Melhor Proprietário: Stud H&R



