Turfe brasileiro amanhece sob o luto por Leandro Henrique
Um dos melhores jóqueis brasileiros faleceu na madrugada desta quarta-feira (19).
Leandro: um campeão.
Imagem: Sylvio Rondinelli/JCB
Uma onda de enorme tristeza arrebatou os turfistas brasileiros logo nas primeiras horas desta quarta-feira (19). Faleceu, aos 27 anos, Leandro Henrique, um dos mais brilhantes jóqueis do quadro nacional de pilotos vistos em ação, nas últimas décadas, em nosso país.
Leandro havia se acidentado durante o segundo páreo da reunião do último domingo (16), no Jockey Club Brasileiro. Tendo sofrido diferentes lesões, foi submetido a cuidados médicos e intervenções cirúrgicas no mesmo dia. Já em viés de alta, quando fãs, amigos e familiares compartilhavam atualizações sobre o estado de saúde do piloto, que, ao que tudo indicava, rumava para a retirada da ventilação mecânica, sobreveio, então, a chocante notícia.
Pernambucano, Leandro foi revelado na Escola de Jockeys do Jockey Club de Pernambuco. A habilidade e a desenvoltura vislumbradas nos páreos de pôneis da Madalena alçaram Leandro ao ingresso na Escola de Profissionais do Turfe do Jockey Club Brasileiro. Num local cujas histórias são contadas à base de tantas lendas das rédeas, Leandro conseguiu a proeza de se tornar o primeiro e único aprendiz, até aqui, a conquistar - logo em sua primeira temporada na Gávea (2016/2017) - a estatística de jóqueis.
Contratado para envergar as fardas da Família Stabile, Leandro venceu, no ano de 2017, seu primeiro G1, a bordo de Emperor Roderick, no GP Cruzeiro do Sul (G1). No mesmo ano, a dupla emplacaria novamente na Copa ABCPCC Clássica - Matias Machline (G1). Sob os holofotes e os olhares atentos despertados, mundo afora, para as qualidades de Leandro, em dezembro de 2017 o jóquei participou do Longines International Jockeys’ Championship, em Hong Kong, onde montou ao lado de alguns dos maiores nomes de sua profissão em atividade no turfe internacional.
Emprestando seu talento a diversas coudelarias e profissionais, Leandro passou a ser figura requisitada nos principais festivais do turfe nacional. Do Clássico José Pinheiro Borba, com Namur, em Porto Alegre; passando pelo Grande Prêmio Diana (G1), em São Paulo, a bordo de Happy To Be Me; aterrissando em Curitiba para vencer o Clássico Primavera (L), no dorso de Golden Pacific: sempre Leandro, sempre presente.
De norte a sul do Brasil, o piloto, aliás, chamava atenção por atender a compromissos de montaria mesmo em “dias normais” de corridas em outros hipódromos, que não a Gávea: independentemente do páreo e da localidade, sempre que convidado à assinatura de montarias, Henrique atendia prontamente, sem olhar a quem. Não raramente, retornava ao berço recifense para brindar os aficionados locais com suas conduções na pista da Madalena.
Não obstante sua evidente disponibilidade, chamava atenção outro fator: a cada corrida, desistir parecia ser um verbo inexistente no dicionário do piloto. Fosse na disputa pela vitória, num páreo de graduação máxima, ou, então, pela quinta colocação de um claiming na noturna de segunda-feira, a dedicação do jóquei revelava-se a mesma. Desistir, jamais: um lema possível de ser atribuído à conduta e às conduções de Leandro.
Nessa toada, e também pelo seu perfil afável, disposto ao trabalho e de excelente caráter, Henrique caiu nas graças, cada vez mais, de gente de todo o país. Gente essa que testemunhou a obtenção da milésima vitória com Casa Blanca, em 2021, sob a farda do Haras Santa Maria de Araras - na defesa da qual venceria o seu derradeiro G1, com Passion of Detail, na Taça de Prata (G1) do último dia 1º de agosto; que testemunhou um tricampeonato da estatística de pilotos, no Rio de Janeiro; que testemunhou a conquista de provas importantíssimas, por Leandro, associado a corredores igualmente diferenciados: Filo Di Arianna, Navio Fantasma e London Moon. Este último, múltiplo ganhador de G1 sob suas conduções, era reputado como o melhor PSI que já conduziu em toda a sua carreira.
Em junho de 2025, Leandro escreveu seu nome entre os jóqueis ganhadores do Grande Prêmio Brasil (G1): levou Sinsel, do Stud Red Rafa (também sob a condição de jóquei contratado da farda), à vitória, num final pleno de emoção. Um mês depois, viria, então, a conquista definitiva de sua vida: o nascimento da filha, Manoela.
A enorme quantidade de manifestações, mensagens e homenagens prestadas a Henrique, no dia de hoje, deixa evidente o peso e a dor de sua perda, até mesmo para quem jamais trocou uma única palavra sequer com o bridão. A par da qualidade de jóquei excepcional, “um cara do bem”: adjetivação recorrente entre os interlocutores, nessa situação. Coisa de ídolo, acompanhado e empurrado, a cada páreo, por pessoas que nunca conheceu.
Há feitos e recordações em abundância para se relatar, um talento infindável sobre o qual falar. Ainda assim, neste momento, o que mais se nota é a dificuldade de falar ou escrever qualquer coisa. É o vazio que, todos sabem, ficará, assim mesmo, vazio. Espaço vago que, de agora em diante, somente será preenchido à base de tempo - e das lembranças de um campeão.
A Diretoria da ABCPCC presta seus votos de condolências aos amigos e familiares.



