29 set 2020 | 18:44:31

Court Lady e Onefortheroad: dinastias do turfe brasileiro

Resultados da semana máxima colocaram em voga, novamente, os nomes de duas das maiores matrizes brasileiras, de todos os tempos – bem como uma história que vem sendo escrita, há quase 5 décadas, por diferentes criadores, no Brasil.

Competindo sob a condição de favorito, Pimper’s Paradise sagrou-se protagonista mor do Grande Prêmio Brasil. No sábado véspera, o Haras Doce Vale já havia vencido a prova homenagem aos Irmãos Seabra, com Perigoosa. Além de defenderam a mesma – brilhante e vitoriosa – farda, ambos os animais possuem outro notável ponto de intersecção em suas histórias: os nomes de Court Lady e Onefortheroad cujas respectivas produções remetem a verdadeiras dinastias da criação brasileira.

Antes de desaguar em Pimper’s Paradise e Perigoosa, em pleno ano de 2020, porém, tal fonte de classicismo teve sua gênese brasileira há mais de 4 décadas. Isso aconteceu quando o Haras Sideral, de José Mariano Raggio, importou a irlandesa Redbrick, em meados dos anos 70.

Tratava-se de uma filha do britânico Crepello, que já havia vencido uma estatística de reprodutores, na Inglaterra, e à época vingava como líder entre os avôs-maternos daquele mesmo país. No pedigree de Red Brick, também chamava atenção o nome de sua segunda mãe, Rosalba (de 1956), vencedora do Coronation Stakes (G1) e do Queen Elizabeth II Stakes (G1).

Registro da vitória de Court Lady no GP OSAF

Imagem: Revista Turf & Fomento

A primeira fêmea que Red Brick deu à luz, no Brasil, foi Remember, uma múltipla ganhadora clássica, entre Cidade Jardim e Gávea, com destaque para os êxitos conquistados nos Grandes Prêmios Henrique Possolo (G1) e 25 de Janeiro (G2). A segunda fêmea foi Barbariccia, já criada sob a égide do Haras Inshalla (que adquiriu a propriedade do Haras Sideral, em Bagé, bem como suas matrizes) mas que renderia a outro tradicional estabelecimento criatório, elemento de grande talento: Pia-Vovo, um Figuron criado pelo Haras Rio das Pedras, que viria a vencer os Grandes Prêmios Derby Paulista (G1) e Consagração (G1).

A terceira fêmea na trilha de Red Brick foi, justamente, Court Lady. Nascida em 1984, no Haras Inshalla – a quem também defendeu em campanha. Das 11 vitórias da filha de Locris, 8 deram-se na esfera clássica. A principal delas, aconteceu no Grande Prêmio OSAF (G1), em Cidade Jardim, onde também venceu o Grande Prêmio 25 de Janeiro (G2).

Quando Court Lady restou levada à reprodução, ao final dos anos 80, o Haras Inshalla (e seu plantel) havia sido, há pouco, adquirido por Alfredo Grumser – que ali instalou o Haras Doce Vale, a quem Court Lady serviu, enquanto matriz. A exemplo da mãe, Court Lady “vingou” logo com a sua primeira fêmea: New Rochelle (Ghadeer), de 1991, que venceu o GP João Cecílio Ferraz (G2). Uma geração depois, Court Lady produziu Onefortheroad – mais uma fêmea resultante da cobertura de Ghadeer.

Depois de estrear, com vitória, aos 2 anos, Onefortheroad emendou outras 3 conquistas consecutivas, na Gávea – incluindo os Grandes Prêmios Carlos Telles e Carlos Gilberto da Rocha Faria (G2) e João Adhemar e Nelson de Almeida Prado (G3). Viajou até Cidade Jardim, então, para vencer – na desclassificação de Oriental Flower – o Grande Prêmio Diana (G1) de 1995. Somente voltou a competir no ano de 1996, no Rio de Janeiro, tendo escoltado Eternita no GP Henrique Possolo (G1) e finalizado em quarto no Derby que marcou a tríplice coroa de Groove.

Onefortheroad possui números arrebatadores

Imagem: Revista Puro Sangue Inglês

Onefortheroad encerrou sua campanha com 5 vitórias em 12 saídas. Começou a despontar, como mãe, ao parir Ay Caramba (Roi Normand), no ano 2000. Líder na Gávea, venceu um Grande Prêmio ABCPCC (G1) – à época o Criterium de Potros – para cima de ninguém mais, ninguém menos, que Leroidesanimaux. Enviado para os Estados Unidos, Ay Caramba venceu o Caesar Rodney Handicap (G3) e o Oceanport Handicap (G3). Após encerrar campanha, retornou para o Brasil, onde passou a servir como garanhão, no próprio Haras Doce Vale. Em que pese ter sido prestigiado, praticamente, apenas pelo próprio criador, ainda assim foi capaz de – com 58 produtos registrados, até aqui, no Stud Book Brasileiro – produzir uma ganhadora do GP OSAF (I Scream) e um ganhador do GP Brasil (My Cherie Amour).

Depois de Ay Caramba, Onefortheroad revelou Bye Bye Caroline (Royal Academy), que já figurava como reprodutora black type por meio do ganhador de G2, I Say You Stay, e agora encontra-se imortalizada nos anais do turfe brasileiro, na condição de mãe do ganhador do GP Brasil, Pimper’s Paradise.

Chérie Gigi (Roi Normand), que deu continuidade à linha de descendentes de Onefortheroad, foi às prateleiras de troféus por meio de Nostalgie, que venceu o GP Margarida Polak Lara – Taça de Prata (G1). Platine, seu outro produto, conquistou prova de G3. Vindo de finalizar em segundo em duas provas de G1, Rei do Camarote é um dos destaques da geração 2017, em ação, nas pistas da Gávea, sendo ele outro destacado filho de Chérie Gigi.

Ay Caramba venceu G1 no Brasil, G3 nos EUA e múltiplo produtor de G1

Imagem: Revista Turf Cidade Jardim

Outro elemento clássico de Onefortheroad foi Éissoai (Roi Normand), que, após iniciar campanha na Gávea, foi até Cidade Jardim para vencer o Grande Prêmio Diana (G1), evitando a conquista da tríplice coroa por Light Green. Nos Estados Unidos, Éissoai formou a dupla no Buena Vista Handicap (G2).

Irmão próprio de Éissoai, Flymetothemoon foi um dos mais destacados elementos, de uma forte geração. Depois de vencer o GP Linneo de Paula Machado (G1), na Gávea, foi o terceiro no Derby Paulista (G1) ganho por Negro da Gaita, em São Paulo. Negro da Gaita, que, por sua vez, viajou até a Argentina, na sequência, para formar a dupla no GP Carlos Pellegrini (G1). Em sua segunda campanha aos 3 anos, Flymetothemoon venceu o Grande Prêmio São Paulo (G1) e aos 4 escoltou Jeune-Turc no GP Brasil (G1). Atualmente reprodutor, é pai, dentre outros, Roman Holiday, que, no último final de semana, enfrentou os mais velhos, na condição de um dos mais apostados, no GP Presidente da República (G1).

Na sequência alfabética da produção de Onefortheroad, veio I’m A Lady (Wild Event), mãe de Perigoosa, destacada, acima, como vencedora do Brasil das Éguas, contra Mais Que Bonita. Encerram a produção de Onefortheroad Justhewayouare (Wild Event) e Kissingafool (Elusive Quality), éguas mais novas, nascidas em 2009 e 2010 respectivamente. Ambas compõem o plantel do Haras Doce Vale.

Das informações acima, extrai-se que Onefortheroad encerrou sua produção com 27% de produção clássica, sendo que seus 3 ganhadores black type obtiveram sucesso, justamente, em provas de G1. Além disso, 37% de suas filhas geraram ganhadores individuais de G1. Ao todo, há 8 ganhadores individuais de G1 que contam com Onefortheroad em alguma altura de seu pedigree.

Molengão: produção de Court Lady no Stud TNT

Imagem: Stud TNT

Tal qual exposto acima, Onefortheroad figurou, apenas, como o 2º produto da prole de Court Lady. Route Sixty Six, por exemplo, foi outra bem sucedida matriz do Haras Doce Vale, tendo gerado Double Trouble, consagrada por vencer, nos Estados Unidos, o Santa Maria Handicap (G1). Já Molengão representa a segunda cria de Court Lady para o Stud TNT, tendo o alazão sido exportado, para os Estados Unidos, após vencer, de forma esmagadora, em sua estreia, aos 2 anos. No exterior, revelou-se elemento dos mais competitivos no principal segmento do turfe norte-americano, tornando-se múltiplo ganhador de G2 e segundo colocado no Santa Anita Handicap (G1).

Para o mesmo Stud TNT, gerou, ainda, os clássicos de G2 e G1, respectivamente, New Bobact e Ohneguinha. Por fim, no derradeiro elemento de sua produção, Court Lady originou Runforthedoe, que venceu, na Argentina, o Gran Premio Montevideo (G1) e, nos Estados Unidos, o Oaklawn Handicap (G2).

Numa atividade de tamanhos desafios, em escala quantitativa e qualitativa, como a indústria do turfe, muitos perderam-se, justamente, ao vaticinar fórmulas prontas e/ou capazes de conduzir ao sucesso imediato. Dentre as várias máximas do meio, porém, há uma da qual é, especialmente difícil de se discordar.

“Sangue não é água”.

por Victor Corrêa

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