Joqueta Saffie Osborne faz história no St. Leger Stakes (G1), em temporada de feitos femininos
Profissional tornou-se a primeira mulher a vencer uma das etapas da chamada tríplice-coroa britânica. No primeiro semestre, Cherie DeVaux foi quem roubou a cena, na América.
Duas vitórias, separadas por milhares de quilômetros e por tradições distintas, colocaram duas mulheres em um lugar inédito na história do turfe em 2026. Após a saga vitoriosa de Cherie DeVaux, no Kentucky Derby (G1), durante o primeiro semestre, Saffie Osborne tornou-se, no último final de semana, na Inglaterra, a primeira joqueta a cruzar na frente no St. Leger Stakes (G1) - bem como a primeira a vencer uma prova das classic series britânica.
Para além das conquistas, em si, no currículo das duas profissionais, os resultados de Golden Tempo e Highwayman acrescentaram dois capítulos a uma transformação que, embora lenta, vem se tornando cada vez mais evidente nas grandes corridas internacionais.
Saffie Osborne: 250 anos depois, uma mulher vence o St. Leger
No último dia 12 de setembro, o hipódromo britânico de Doncaster testemunhou uma cena que levou 250 anos para acontecer.
Na 250ª edição do St. Leger Stakes (G1) - a 3ª prova da tríplice coroa britânica -, Saffie Osborne, aos 24 anos, conduziu Highwayman à vitória e tornou-se a primeira mulher a montar um ganhador do páreo. O triunfo veio por meio de uma montaria assinada para o jovem e talentoso Joseph O'Brien.
Saffie Osborne comemora a vitória de Highwayman no "St. Leger".
Imagem: Edward Whitaker/Racing Post
A dimensão histórica da conquista, entretanto, contrasta com o número de oportunidades que as mulheres tiveram para alcançá-la. Profissionais do sexo feminino somente passaram a ser autorizadas a montar na Inglaterra a partir de 1972 e, segundo levantamento apresentado por Frank Keogh, a vitória de Osborne foi apenas a terceira participação de uma mulher no próprio "St. Leger".
O dado é ainda mais revelador quando observado em relação ao Epsom Derby (G1). Desde a primeira participação feminina, de Alex Greaves, em 1996, apenas três mulheres haviam montado em um Derby britânico. Nas 30 edições seguintes, houve 427 inscrições, das quais somente duas tiveram mulheres nas rédeas. Ou seja, apenas 0,47% das montarias assinadas no páreo.
Hayley Turner tornou-se a primeira mulher a vencer uma prova de G1, na Inglaterra, com Dream Ahead, na July Cup (G1) de 2011. Já Hollie Doyle venceu o Prix de Diane (G1), na França, em 2022, com Nashwa, tornando-se a primeira mulher a vencer um G1 europeu pertencente às classic series (quais sejam os páreos reservados a potros e potrancas de 3 anos, compondo ou não o sistema da tríplice coroa). Em 2025, Nina Baltromei havia se tornado a primeira mulher a vencer o Deutsches Derby (G1) - figurando com a primeira joqueta a vencer um Derby Europeu.
A trajetória de Osborne ajuda a dimensionar o significado da conquista. Filha do treinador e antigo jóquei de obstáculos Jamie Osborne, Saffie enfrentou um turbulento início de carreira de joqueta: em 2020, logo após conquistar sua primeira vitória nas corridas flat (sem obstáculos), sofreu uma queda em Windsor que lhe provocou concussão, fratura no braço, fraturas nas costelas e perfuração pulmonar. Em 2025, uma séria lesão no joelho interrompeu sua temporada.
A recuperação antecedeu um 2026 de ascensão. Antes do mencionado êxito obtido na semana passada, a joqueta já havia "passado raspando", em outro G1: A boro de Touleen, formou a dupla no Coronation Stakes (G1), durante o meeting de Royal Ascot, finalizando a apenas 1/2 corpo da excelente Precise.
Cherie DeVaux: o Kentucky Derby também deixou de ser território masculino
Cherie DeVaux posa com Golden Tempo, após a histórica vitória no Kentucky Derby.
Imagem: Nellie Carslon/Paulick Report
Cinco meses antes, do outro lado do Atlântico, outra barreira histórica havia caído.
Em 2 de maio, Churchill Downs recebeu a 152ª edição do Kentucky Derby (G1). Na chegada, Golden Tempo, treinado por Cherie DeVaux e conduzido por José Ortiz, avançou nos metros finais para derrotar Renegade por pescoço. Figurando entre os maiores "azares" do páreo, o filho de Curlin proporcionou à coletividade turfística uma marca inédita: DeVaux tornou-se a primeira mulher a treinar o vencedor da "Run For The Roses".
DeVaux atingiu o especial patamar depois de uma formação construída longe dos holofotes. Nascida em Saratoga Springs, em uma família ligada às corridas de trote, começou a trabalhar com cavalos Puro-Sangue Inglês no estábulo de Chuck Simon. Mais tarde, passou oito anos na equipe do multicampeão Chad Brown, tornando-se uma de suas assistentes e participando, dentre outros trabalhos, da recuperação da campeã Lady Eli - após um longo período afastada das pistas por laminite. Obteve sua licença de treinadora em 2018 e encilhou seu primeiro vencedor em março de 2019.
E a história não terminou no primeiro sábado de maio. DeVaux também venceu o Belmont Stakes (G1) com o mesmo cavalo. A tradicional disputa nova-iorquina, aliás, coincide com o nome da primeira mulher a vencer, como treinadora, um páreo da tríplice coroa dos Estados Unidos: em 2023, Jena Antonucci foi a responsável pelo vitorioso Arcangelo.



