04 maio 2026 | 21:29:15

Quebra de paradigmas, reflexões e Golden Tempo: a magia do Kentucky Derby

Imune ao incólume, maior corrida norte-americana fez de Churchill Downs a "capital mundial do turfe", no final de semana.


Golden Tempo: o astro maior de um Kentucky Derby repleto de significados.

Imagem: A. Evans (Twitter - https://x.com/A_Evers)

Após ocupar, durante a maior parte do páreo, a décima oitava e última colocação, Golden Tempo protagonizou uma atropelada cinematográfica, no Kentucky Derby (G1) do último sábado. Derrotando Renegade, que, em que pese correr um bocado à frente de Golden Tempo, também emplacou forte arremate, no tiro direto, o "azar" de 23 por 1 sagrou-se o grande astro da maior corrida do turfe norte-americano - que, não à toa, mexe com turfistas de todo o mundo.

Tanto a vitória de Golden Tempo quanto o final de semana, em Churchill Downs, renderam ao turfe quebras de paradigmas, fatos e números inusitados - e fizeram do meeting que abriu a tríplice coroa norte-americana um grande acontecimento.


A farda tão vitoriosa - que jamais havia vencido um Kentucky Derby

Ainda que co-proprietário de Orb, vencedor em 2013, o Phipps Stable, com a sua tradicionalíssima farda preta e boné vermelho, jamais havia cruzado o disco de um Kentucky Derby na primeira colocação. Golden Tempo vingou, assim, derrotas inesquecivelmente amargadas por outros representantes da coudelaria, que se fez notar como uma das maiores do turfe norte-americano, no século XX.

Em 1965, Dapper Dan atropelou tardiamente, na prova vencida por Lucky Debonair (clique AQUI para assistir ao reply). Já no ano de 1989, os Phipps contaram com o favorito do páreo, o lendário Easy Goer, que, por sua vez, escoltou seu arquirrival Sunday Silence - sem prejuízo do fato de que Awe Inspiring, o terceiro colocado, também pertencia aos Phipps (clique AQUI para assistir ao replay).


Quem é rei nunca perde a majestade

A história de Golden Tempo, a exemplo de outros milhões de espécimes de sua raça, teve início na definição do cruzamento entre garanhão e matriz. No seu caso, o reprodutor escolhido foi Curlin, que, cerca de duas semanas antes do êxito máximo de seu filho, teve sua temporada de monta interrompida, antecipadamente - em razão de uma úlcera e de problemas de fertilidade.

O reprodutor de 22 anos revelou seu primeiro ganhador de Kentucky Derby. O nome de Curlin, nessa história, porém, não parou por aí. O já mencionado Renegade, que escoltou Golden Tempo, é um neto materno de Curlin. Já o terceiro colocado, Ocelli, descende de Connect, no caso um garanhão filho de Curlin.

Motivos de sobra, portanto, para os investidores e apoiadores de First Captain, o primeiro Curlin a aportar no Brasil, "rirem à toa".


Emoção - e talento - à toda prova: o show dos irmãos Ortiz

Da origem humilde, em Porto Rico, à consagração como jóqueis de primeiro escalão, nos Estados Unidos, os irmãos José e Irad Ortiz Jr. trilharam um longo caminho, na árdua profissão. Atualmente, porém, caso algum fã do esporte acabe instigado a elaborar seu "top 5" de bridões que atuam no país, é bastante improvável que qualquer um dos dois fique de fora.

No desfecho do Kentucky Derby, José superou Irad - o que, contudo, não impediu que poucos metros após o disco esse último tenha buscado seu companheiro para um fraterno abraço, ainda com os cavalos em movimento. Na entrevista prestada no retorno à repesagem, José revisitou, bastante emocionado, sua trajetória, bem como reforçou a importância de sua família, em todos os aspectos. Não menos emotivo, Irad foi consolado por Mike Repole, proprietário de Renegade, num abraço de carinho quase paternal - num das melhores representações gestuais que poderia haver sobre espírito esportivo.

Um dia antes da icônica conquista, José Ortiz já havia levado ao disco Always A Runner, a campeã do Kentucky Oaks (G1). Ao fazê-lo no dorso da filha do excepcional Gun Runner (ambos, tanto ela quanto o reprodutor de propriedade da Three Chimneys Farm, do brasileiro Gonçalo Torrealba), Ortiz tornou-se o nono jóquei da história a emplacar a dobradinha "Oaks & Deby", num mesmo ano.


Cherie DeVaux: a primeira treinadora a vencer um Kentucky Derby

Nos seus 150 anos de história, o Kentucky Derby - diferentemente de outros páreos de renome internacional, sobretudo europeus - jamais havia coroado um pupilo treinado por uma mulher. Em 2026, Cherie DeVaux colocou abaixo esse tabu, ao encilhar Golden Tempo.

Ex-assistente do treinador Chad Brown (vencedor, na véspera, do "Oaks", com Always A Runner), Cherie engajou seu voo solo há pouco menos de 10 anos. Nesse período, ao desempenhar com êxito a profissão, angariou bons proprietários e animais de alto quilate - aos quais, uma vez associada, passou a visitar, com frequência, o winners' circle de importantes provas. O Kentucky Derby, certamente, a principal delas.

O registro de sua entusiasmada torcida por Golden Tempo foi o vídeo do Kentucky Derby, que, definitivamente, "viralizou".


Nunca antes tanta gente assistiu aos "2 minutos mais emocionantes do esporte"

Mais do que uma renomada corrida de cavalos, o Kentucky Derby é um patrimônio cultural dos Estados Unidos e, não por menos, alcança milhares de lares e televisores, ano a ano, quando de sua realização. Desta feita, a transmissão da prova foi acompanhada por uma legião de espectadores que, somados àqueles que viveram suas emoções, ao vivo e a cores, fizeram da versão 2026 do páreo a mais assistida de todos os tempos.

Durante os "2 minutos mais emocionantes do esporte", havia, nada menos, que 24,4 milhões de pontos de transmissão ligados na jornada da NBC Sports.


T. O. Elvis, um novo feito japonês e a polêmica das CAW beetings

Momentos antes do Kentucky Derby, muito se aguardava por uma nova exibição de Knightsbridge, no Churchill Downs Stakes (G1). Na hora da verdade, porém, o corredor da Godolphin restou pulverizado, sem direito a torcida, por T. O. Elvis.

Ainda que norte-americano de nascimento, o corredor desenvolve campanha e é treinado no Japão - por Daisuke Takayanagi. Assim sendo, T. O. Elvis tornou-se o primeiro elemento egresso do turfe nipônico a vencer uma prova de G1 durante o meeting da Run for The Roses.

Do lado de fora das pistas, a vitória de T. O. Elvis voltou a aquecer os debates e discussões (que envolvem pedidas de novas regulamentações a respeito) sobre o impacto do "CAW", nas corridas atuais. A sigla, que significa Computer Assisted Wagering, corresponde a apostas realizadas por sistemas computadorizados, que, apoiados por análises em tempo real, estatísticas e algorítimos, movimentam grandes quantias na "pedra" e têm por objetivo garantir aos seus titulares algum tipo de vantagem naquele páreo, independentemente do resultado.

Como as apostas CAW são realizadas até o último segundo que precede a partida de uma corrida (justamente para possibilitar um mapeamento de 100% do que foi apostado naquele páreo), sua utilização vem causando grandes distorções nos rateios dos competidores, num curtíssimo intervalo de tempo. Com um morning line de 30 para 1, T. O. Elvis rateava 12 por 1 no momento do alinhamento e, por fim, na revelação de seu eventual definitivo, agraciou seus apostadores com um eventual de 6,8.


O circo volta para a estrada - e reacende as polêmicas sobre o Preakness

Por maior que seja a sua importância enquanto acontecimento único e individual, o Kentucky Derby, para todos os efeitos, é apenas o ponta-pé inicial da tríplice coroa. Quando as luzes de Churchill Downs se apagam, é hora do "circo voltar à estrada", já mirando sua próxima parada. Daqui duas semanas, o Preakness Stakes (G1), em Baltimore, espera por todos.

Mas nem todos esperam pelo "Preakness".

Publicações de diferentes veículos especializados dão conta de relatar que, mais uma vez, a segunda gema da coroa não estaria nos planos de grandes treinadores, responsáveis por alguns dos dos coadjuvates de luxo do Derby. Bill Mott, que, no ano passado, abriu mão da possibilidade de postular a tríplice coroa, com Sovereignity, voltará a desviar de Pimlico, desta feita com Chief Wallabe, quarto colocado no sábado, após uma reta desastrosa. Todd Pletcher e "seu" Renegade também tender a rumar, diretamente, ao Belmont Stakes (G1).

A evidente queda de apelo do páreo que, logo logo, terá seu campo conhecido, reacende discussões sobre a eventual necessidade de a tríplice coroa norte-americana carecer de uma remodelagem - com maior espaçamento entre suas provas. Tradição versus modernidade. O cavalo "a prova de tudo", de outrora, versus exemplares de uma raça que, já no avançar do novo milênio, revelam-se mais delicados e vulneráveis a uma sequência rigorosa de competições - a ponto de fazerem com que seus treinadores sequer fiquem vermelhos, no momento em que dizem não ao segundo e iminente desafio da série de corridas mais famosa do mundo.


por Victor Corrêa

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