12 nov 2020 | 14:12:53

Ascenção e declínio do turfe brasileiro

por Sergio Barcellos

De saída, parece razoável informar que essa é muito mais uma conversa amistosa ao pé do fogo entre amigos com o gosto comum pelo cavalo de corrida e as corridas de cavalo, do que propriamente um artigo.

Tampouco, essa conversa pretende causar polêmica – muito ao contrário – sobre os motivos e razões da progressiva perda de status e prestígio de uma atividade que, no passado, estava catalogada entre as principais formas de entretenimento da sociedade brasileira, além de gerar milhares de empregos na cidade e no campo.

E conversando – espero que calmamente – tentar identificar o que as sociedades desenvolvidas do hemisfério norte fizeram para lidar com o espírito dos novos tempos e recuperar seu turfe – que não é mais turfe, é indústria do cavalo de corrida.

Turfe e estado

O início dos anos dourados das corridas de cavalo entre nós, data de meados da década de 1920, quando a família Paula Machado – seu notável patriarca, Dr. Linneo, à frente – resolveu reunir os amigos e construiu o magnífico Hipódromo Brasileiro no bairro da Gávea, Rio de Janeiro, sem contar com um centavo de participação de recursos públicos (no máximo, contou com sua “sympathia”, como está consignado na placa de bronze de uma das colunas do grande salão de apostas da tribuna social).

Na verdade, tratou-se de uma iniciativa de poucos homens movidos pelo vigor das emoções, a qualidade da imaginação, um temperamento que privilegiava a coragem por oposição à timidez, e – por que não? – o apetite pela aventura em lugar do amor pelas facilidades da vida.

E eles o fizeram de forma nada menos que espetacular, a julgar pelas cinco tribunas em balanço do hipódromo, seus impecáveis salões, seus pisos, bronzes, mármores, arandelas, carvalhos maciços, candelabros Baccarat do século XIX, sancas pintadas à mão com as cores dos proprietários da época, três pistas, dois lagos no pião do prado, quase 2.000 árvores, as cocheiras da Vila Hípica copiando as inglesas de Newmarket e as francesas de Chantilly.

Não satisfeitos, como arremate desse presente à cidade – ainda hoje um de seus maiores patrimônios arquitetônicos – Dr. Linneo e seus amigos compraram, mandaram embarcar e fizeram colocar na entrada da tribuna social do hipódromo a belíssima estátua equestre do “Dollar”, um dos grandes chefes-de-raça europeus de seu tempo, que hoje está no paddock do campo de corridas.

Realmente, outra civilização...

Mas como o destino vem em socorro de certas iniciativas, poucos anos depois os revolucionários de 1930, novos donos do país, amarraram seus cavalos crioulos no obelisco da Av. Rio Branco, e se mudaram – praticamente todos – para as tardes felizes dos fins de semana das corridas no Jockey Club Brasileiro.

Pronto, estava consagrado o casamento perfeito entre turfe e estado, algo fundamental na tricentenária história desse esporte, seja aqui, seja alhures.

Aqui, quem tiver dúvida, deveria ler o diário de Dr. Getúlio Vargas entre 1930 e 1942. São 1.257 folhas, dois volumes, divididos em dois períodos (1930-1936 e 1937-1942), edição do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas - FGV, Editora Siciliano, 1995. E lendo, dia a dia, iria encontrar, não uma, mas dezenas de referências ao Jockey Club e ao turfe brasileiro, algumas delas, como: “Hoje, domingo, uma tarde agradável nas corridas do Jockey.”

E no dia dos grandes eventos do turfe do Rio, ele, o presidente da República, entrava pelo portão do Jardim Botânico em seu Rolls-Royce conversível, acenava para a multidão, mandava abrir a cerca de ferro da tribuna social, subia a chamada “escada monumental” que dá acesso à tribuna de honra, vizinha ao esplêndido “Salão das Rosas”, e ia ver o GP Brasil.

Alguém imagina um casamento mais feliz entre poder político e turfe? Pois isso não é diferente no hemisfério norte.

Se alguém pensa o contrário, ainda não viu a Rainha entrando de carruagem pela pista, em companhia dos pares do Reino, e descendo da tribuna do Royal Enclosure – onde só se entra, de casaca, e se o nome do convidado tiver sido previamente aprovado por Buckingham – para entregar, pessoalmente, o prêmio ao proprietário do vencedor da Ascot Gold Cup, na gloriosa semana do Ascot Meeting. Coisa de inglês.

Mas na França, não é diferente. Lá não há reis e rainhas desde 1789, mas o turfe local é responsável por 77.000 empregos diretos, o volume de apostas gira em torno de E$ 9,7 bilhões/ano, três ministros de estado se sentam no Conselho do PMU (Planejamento, Fazenda e Agricultura) e os presidentes da France-Galop têm acesso direto à estrutura local de poder. Em qualquer nível.

O mesmo para o Japão, com suas cifras bilionárias de apostas e onde a Japan Racing Association é parceira e fiel comensal do governo do país.

O mesmo para os EUA, onde, embora o turfe seja regulado pelos 50 estados que compõem a União, quem os representa junto aos Comitês do Senado americano é o presidente do The Jockey Club, geralmente um criador emérito, também com irrestrito acesso e diálogo junto ao establishment da nação. O mesmo se repete na Alemanha, na Irlanda, nos turfes do sudeste asiático e da Oceania (Austrália e Nova Zelândia).

O que isso quer dizer? Simples, que sem um diálogo permanente com o poder público; sem uma Federação Nacional que reúna todos os Jockey Clubs, criadores e proprietários e represente seus interesses junto a todas as esferas do estamento político; considerado como rival, quando não inimigo, das loterias estatais; sem representatividade junto aos demais poderes da República; carente dos representantes e instrumentos que permitem a construção dessas pontes, não causa a menor surpresa que a atividade tenha sido entregue à sua  própria sorte.

Se há uma data para explicar o começo do declínio do turfe do Rio de Janeiro, e em grande medida o do país, ela se refere à mudança da capital para Brasília, nos idos de 1960.

Ao ponto de um novo presidente da República nos primeiros meses de seu curto mandato, ter escrito um singelo bilhete para o chefe de sua Casa Civil mandando acabar com as corridas de cavalo no Brasil. E junto com o bilhete, destruiu de um só golpe, milhares de empregos. O turfe nacional bateu na trave, ou já teria acabado há muito tempo...

Sem a capital e seu poder político frequentando o hipódromo, o bastão da liderança da atividade mudou-se para São Paulo, que, do alto de seu um terço do PIB nacional, construído pela inequívoca capacidade de sua gente, passou a escrever as sentenças de seu destino.

E de forma tão brilhante, que vão longe os tempos em que sua estação de monta alojava e oferecia aos criadores, a preços civilizados, entre vários outros, o sangue real de um ganhador de Grupo I na França, filho de um dos maiores chefes-de-raça da Europa, em mãe de lenda, bicampeã do Prix de l’Arc du Triomphe. Bons tempos. Grandes tempos.

Onde toda essa breve cronologia nos leva? Nos leva a uma atividade impotente diante da eterna pressão fiscal dos poderes estaduais e municipais, tendo que enfrentar, sozinha, a concorrência desleal de outros jogos não regulamentados, ademais de dirigida sob a forma de clubes em cujos estatutos se lê a inefável frase de que tudo se trata de “entidades sem fins lucrativos.” Então, falta pouco para a atividade virar crônica de uma morte anunciada.

E ela, infelizmente, está chegando. Na década de 1960 havia cerca de 60 clubes de corrida no Brasil. Hoje há cerca de 10, e em futuro próximo, a julgar pelos números cadentes da criação, sobrarão três ou quatro por escassez de matéria-prima – leia-se, cavalos – para fazê-los funcionar.

Isso significa que o turfe vai desaparecer nos próximos anos? Não. Mas significa que se ele não for encarado como indústria do turfe, a rota de colisão está traçada.

Turfe como indústria

Corridas de cavalo nos séculos XVIII e XIX eram sinônimo de lazer diletante. Ponto. Hoje – onde elas dão certo – é indústria do lazer, como tantas outras. Sem nenhuma diferença.

Há várias formas de se adaptar a essa mudança. Uma das mais conhecidas é a francesa, quando Jean-Luc Lagardère, um dos maiores empresários do hexágono (Airbus, Aérospatiale, Matra, Canal 5 da TV local, Livraria Hachette, etc, etc), criador e proprietário de cavalos de corrida, assumiu a direção da atividade e declarou na primeira frase de seu discurso de posse: “Não vim para presidir um fracasso.”

Homem do mundo, com trânsito livre em todas as esferas do poder nacional francês, reuniu as duas grandes sociedades locais (do trote e do galope) em uma só, e criou a France-Galop, 100% profissional, hoje habitando o moderno edifício da Place Abel Gance, em Boulogne-Billancourt, Paris. Não há ninguém nesse edifício que não seja profissional do seu ofício.

Em seguida, separou corridas de apostas. Claro, corridas é uma coisa, apostas outra totalmente diferente.

Depois, olhou para o belíssimo – e por isso mesmo, caríssimo – centro de treinamento de Chantilly e começou o processo de descentralização do preparo dos animais, distribuindo-o por vários locais do interior ao alcance da renda dos médios e pequenos proprietários. Sindicalizou a propriedade dos cavalos de corrida, reduzindo seu custo de manutenção. Fez do pequeno e médio proprietário a espinha dorsal das corridas na França, ampliando seu número. Subordinou à France-Galop todos os aspectos técnicos dos hipódromos do interior da França. E nesse processo fez aparecer mais de 70 mil empregos diretos ligados à atividade. Uma revolução.

Mas seu grande legado foi ter transformado o Pari Mutuel Urbain (PMU) na segunda maior empresa do mundo em matéria de volume de apostas, só perdendo para os números estratosféricos do Japão (hoje o PMU foi ultrapassado por Hong-Kong, mas ainda vende mais jogo em corridas de cavalo que os EUA). Como? Profissionalizando toda a estrutura da empresa, responsável pela gerência de mais de 12.000 pontos de venda de apostas na França e proprietária de três canais de TV em HD de última geração.

O conceito

O conceito que preside todo esse império – e todos os outros impérios turfísticos do mundo desenvolvido – é um só: apostas em corridas de cavalo é um negócio que tem de gerar renda 24 horas por dia, todos os dias. E se não há corridas na França, e se os principais hipódromos estão fechados no inverno, as imagens delas têm que vir de todos os países onde exista um turfe organizado.

O “pool” do PMU hoje reúne 16 países, girando em todos os fusos horários do planeta – inclusive recebendo, por um breve e brilhante momento – imagens das corridas do Jockey Club Brasileiro. Como processo civilizatório e alavanca de marketing dos turfes locais, não há nada mais eficiente que estar num “pool” desses.

Não é outra, senão essa, a “mágica” do turfe do hemisfério norte, onde todos os turfes, de todos os países, trocam imagens e apostas todo o tempo. Seja em pedra separada, seja no “milagre” da pedra comum internacional (regime de commingle), onde o que é jogado no exterior se incorpora à pedra local criando escala – e com isso, trazendo de volta o jogador profissional de todos os jogos.

Que eles continuam por aí, desde que o historiador e filósofo Johan Huizinga explicou em seu Homo Ludens – Uma História Social do Jogo, que, no fundo, todos nós somos isso: jogadores.

É exatamente este o conceito que está na base do cheque de mais de E$ 1 bilhão que o PMU entrega à France-Galop todo final de ano para que ela organize e premie as corridas na França, fazendo girar a roda dessa indústria, das maiores da história do planeta, por sinal.

[Apenas como exemplo, o valor total girado pela indústria do jogo no mundo é da ordem de E$ 520 bilhões/ano. Huizinga tinha razão.]

Turfe e o JCB 

No zênite de seu esplendor econômico-financeiro, o Jockey Club Brasileiro resolveu aplicar o superavit das rendas geradas pelo turfe em uma nova sede social, erguida em um amplo quarteirão do centro da cidade do Rio de Janeiro, projeto do arquiteto Lucio Costa, e constituída por três prédios: o menor, de frente para a Av. Pres. Antonio Carlos (a sede social); o do meio, destinado a gerar renda de  alugueis; e o dos fundos, virado para a Rua Debret, com 750 vagas de garagem alugadas aos sócios. O resto, são lojas para alugar em torno do grande perímetro.

Em meados de 1980, iniciou uma modesta sede esportiva – na   verdade, modestíssima – nos terrenos adjacentes à lagoa Rodrigo de Freitas, sede essa completada em toda sua beleza e funcionalidade entre os anos de 2.000 e 2.004. E o quadro social do Jockey Club Brasileiro aumentou significativamente para mais de 5.000 integrantes.

Essas duas iniciativas, que a princípio pareceram um desvio de conduta em relação ao turfe – e, em princípio, eram mesmo – com o progressivo declínio deste último, transformou-se em renda, e hoje é o maior ativo com que conta a instituição para garantir sua sanidade econômica. Qualquer dúvida a respeito pode ser esclarecida bastando ler as rubricas dos relatórios financeiros da instituição.

Hoje, são essas rubricas conhecidas como ”Receitas Patrimoniais”, mais aquelas resultantes das taxas de manutenção e de transferência de títulos; mais as que veem do aluguel de espaço nos 640.000 m² do hipódromo (onde há oito restaurantes e várias outras formas de lazer), que, em seu conjunto, garantem o equilíbrio das contas da entidade.

E permitem ao JCB, inclusive, continuar mantendo – desde a década de 1950 – uma das melhores escolas da rede pública da Prefeitura do Rio de Janeiro, que abriga mais de 400 alunos, entre os filhos de seus profissionais e aqueles vindos do entorno mais pobre do hipódromo. Mais a escola de profissionais do turfe, em tempo integral.

Como forma de colaborar com a inserção social no país, não há nada sequer parecido em nenhum dos clubes brasileiros – de qualquer tipo.     

Em uma tentativa corajosa de simplificação, o Jockey Club Brasileiro ainda é dos poucos clubes de corrida que conseguiu sobreviver ao declínio da atividade entre nós. Irrelevante o que se pense a respeito das duas iniciativas acima mencionadas.

Então, mais uma razão para tentar encontrar uma saída que devolva ao seu turfe a mesma pujança de outrora. E isso virá, se houver engenho, arte – e sobretudo juízo – para perseguir os conceitos e parâmetros que fizeram do turfe do hemisfério norte um modelo a ser seguido – como o é pelo resto do mundo.

Onde estão as apostas?

Neste primeiro quarto do século XXI, elas estão, pela ordem: cerca de 50% nos pontos de venda (“agências credenciadas”, na linguagem do turfe brasileiro); 40% nos sites de apostas e telefonia móvel; 10% nos hipódromos.

O que isso quer dizer? Várias coisas:

(i)            A primeira, é que da qualidade do site de apostas e de sua perfeita manutenção depende metade do êxito de sua captação.

(ii)           A segunda, é que não mais existem “agências credenciadas” na acepção desse termo, ou seja, elas são pontos de venda segmentados. Podem estar em bares, restaurantes, lojas de conveniência de postos de combustíveis, bancas de jornal, etc. E alguns pontos funcionam da mesma forma que os caixas automáticos de banco.

(iii)        A terceira, é que a tendência de se apostar no hipódromo tende a diminuir em termos mundiais (no JCB, por exemplo, o percentual já caiu para 8,6%).

(iv)        Claro, não é mais preciso ir ao hipódromo para ver e apostar em corridas de cavalo. E a frequência ao local só cresce nos dias de grandes eventos do turfe – mas por outros motivos como veremos a seguir.

(v)          O exemplo mais recente e acachapante desse fato é que nos dois dias de realização das provas da Breeders’ Cup, em Keeneland, foram jogados US$ 160 milhões com o hipódromo praticamente fechado pela pandemia do Covid-19.

Então, a primeira conclusão: esqueçamos de grande público nos hipódromos em dias de programação comum. Ele não estará lá. Não é mais preciso. E isso nada tem a ver com o volume do MGA das reuniões, que será maior ou menor, dependendo, apenas e tão somente, da eficiência da captação off-track.

Mas o público virá no dia dos grandes eventos, dependendo de duas variáveis: a qualidade da programação – para os aficionados do esporte – e do “ambiente” – para o público em geral.

Quanto mais elegante, mais correto e mais organizado seja o ambiente, maior a presença do público. Esta é a tônica do turfe do hemisfério norte, onde todo o marketing dos grandes eventos é orientado nesse sentido. Inclusive, no que respeita à adesão do público feminino, que cavalo de corrida e presença feminina sempre formaram uma dupla imbatível.

Então, parece ter chegado a hora de voltar ao tema. A seguir.

Turfe e sua liturgia

Para a natureza humana, o real, o simbólico e o imaginário têm literalmente a mesma importância. Na dúvida, pergunte-se a Jacques Lacan porque é assim.

O turfe sempre foi parte dos dois últimos. Quando se lhe retira qualquer um desses atributos, ele passa a ser qualquer outra coisa, menos turfe. Não entender isso, é não entender sua natureza.

A alma do turfe, aqui ou em qualquer outro lugar onde ele exista de forma organizada, implica algo que Shakespeare – um dos maiores leitores dos sentimentos humanos – definiu no famoso solilóquio de Henrique V, na madrugada de Agincourt (quase tão famoso como o “Ser ou não ser”, do Hamlet), como sendo “ceremony... general ceremony” (aqui entendido como liturgia, práxis, cerimonial, protocolo).

O turfe nasceu, cresceu e se tornou universal, alimentando-se de ceremony em todos os seus detalhes – dentro e fora das pistas.

Existe um cerimonial, uma práxis, um protocolo em torno dele, que quando não respeitados vulnera sua própria alma, o faz vulgar – afastando, ao invés de atrair. Dentro da pista, há uma série de protocolos que devem ser seguidos, e eles estão fartamente descritos no Códigos de Corridas de qualquer turfe que se preze. Basta cumpri-los. Todos eles, sem exceção.

Mas é fora delas que o desprezo ao simbólico e ao imaginário tem atuado de modo implacável no turfe brasileiro para desgasta-lo ainda mais. Na verdade, essa confusão de conceitos faz parte de seu declínio.

Um exemplo clássico é proclamar aos quatro ventos que a entrada nos hipódromos é “Franca.” Inclusive, nos grandes eventos do esporte. Nada pode ser mais deletério em termos de corrosão da imagem da atividade, posto que revelador do desespero que se abateu sobre seus responsáveis.

Por incrível que pareça, a confusão chegou a tal ponto, que hoje uma das figuras mais de acordo com a majestade do lugar é o porteiro da social do JCB, sempre impecavelmente trajado, educado, solicito, respirando protocolo. Para o resto do público frequentador, porém, nada se exige, nem mesmo identificação, ou um código mínimo no trajar-se, pois a entrada é proclamada – pelo próprio clube – como literalmente “Franca.” Ou seja, alguém vai passando na rua, decide entrar, e entra. Sem dizer que no resto das tribunas, não há sequer porteiro.

A falta de um mínimo dos mínimos de ceremony pode derrubar reis – aliás, eles só se distinguem em função disso, como Shakespeare fez Henrique V proclamar na peça do mesmo nome. Porque afasta, ao invés de atrair. Porque diminui, ao invés de elevar. Porque deixa de ser turfe e passa a ser qualquer outra coisa.

Ainda bem que isso não ocorre do outro lado, na excelente sede esportiva do JCB...

Travessia do deserto

O deserto do Nefud, no Oriente Médio, é considerado dos piores lugares da terra, formado, não por areia, mas por lava vulcânica solidificada. Do momento em que o sol nasce, e até que ele se ponha, sua lenta curva extingue qualquer possibilidade de vida na superfície. O turfe brasileiro está prestes a iniciar a travessia do Nefud – e a pé, o que é pior.

Para conseguir chegar vivo ao outro lado, parece razoável tentar copiar certas práticas e conceitos dos turfes que deram – e dão certo. E como isso é apenas uma conversa ao pé do fogo com amigos em torno de um gosto comum, não custa resumi-los. A seguir.

1 – O movimento geral de apostas (MGA) de qualquer turfe organizado e próspero – e ele é quem garante a sobrevivência da atividade – implica temor reverencial a qualquer tipo de improvisação. O que significa acreditar que, de saída, a gerência das apostas é diferente da gerência das corridas, ademais de exigir que sua chefia seja conduzida por uma equipe dedicada a elas em tempo integral.

2 – Que no mundo do século XXI, a indústria do turfe tem que vender seu produto 24 horas do dia, todos os dias. E se não há corridas locais, tem que haver apostas nas imagens de corridas, venham elas de onde vierem.

3 – Que, em termos nacionais, os hipódromos têm que estar conectados em regime de pedra única, seja nas corridas nacionais, seja oferecendo imagens das corridas internacionais em um “pool” uno e indivisível – e sempre no ar.

4 – Que os pontos de venda, ligados em rede nacional via Internet, tenham sempre em mente que seus clientes potenciais não estão mais apenas nas grandes cidades, e sim no interior do país, cujo  agronegócio está hoje distribuído por 5 milhões de proprietários rurais, cujo PIB bruto alcançou R$ 1,55 trilhão, ou seja, 21,4% do PIB brasileiro. E a projeção para este ano, mesmo com pandemia, é chegar a 23,6%. Traduzindo: o campo brasileiro, neste instante, é tão ou mais afluente que a cidade.

5 – Que sem imagem em HD; sem tecnologia da informação (TI); sem anéis de fibra ótica em todos os hipódromos; sem uma totalização de apostas moderna e que funcione em tempo real; sem um controle rígido da rede de pontos de venda; sem uma equipe treinada aqui e no exterior (para ver de perto e aprender como eles fazem), o MGA não vai a lugar algum.

6 – Mas, sobretudo, sem representatividade externa que defenda os interesses da atividade junto a todas as esferas do poder público, vivendo da mão para a boca, cada um por si – quando não separados pelo narcisismo das pequenas diferenças – o Nefud é ali...

Talvez tenha chegado a hora do turfe brasileiro repetir a frase do presidente americano, dez anos antes deles colocarem um homem na lua: “Não devemos fazer isso porque é fácil, mas exatamente porque é difícil.”


por Sergio Barcellos

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